MEDITAÇÃO EM PROVÉRBIOS: DE QUEM, PARA QUEM E PARA QUÊ?
MEDITAÇÃO EM PROVÉRBIOS: DE QUEM, PARA QUEM E PARA QUÊ?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 1.1-7
(1) Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel:
Para aprender a sabedoria e o ensino;
(2) para entender as palavras de inteligência;
(3) para obter o ensino do bom proceder,
a justiça, o juízo e a equidade;
(4) para dar prudência aos simples
e conhecimento e bom siso aos jovens;
(5) ouça o sábio e cresça em prudência;
e o entendido adquira habilidade,
(6) para entender provérbios e parábolas,
as palavras e enigmas dos sábios.
(7) O temor do Senhor é o princípio do conhecimento;
os loucos desprezam a sabedoria e o ensino. (NAA)
DE QUEM? (1.1)
O livro de Provérbios é tradicionalmente atribuído ao rei Salomão, filho de Davi, que é conhecido por sua sabedoria. Agrupando ditos, sentenças e alguns desenvolvimentos maiores, o livro dos Provérbios é um verdadeiro resumo da sabedoria de Israel. Provérbio é uma frase curta, bem construída, que expressa uma verdade adquirida através da experiência e que se impõe pela forma breve e pela agudez das observações. Os provérbios são ensinamentos deduzidos da experiência que o povo tem da vida, e sua finalidade é instruir, esclarecendo situações de perplexidade e fornecendo orientações para a vida humana, como as setas de uma estrada (1,1-7).
Os Provérbios não foram todos escritos por um mesmo autor e não pertencem todos à mesma época. A maioria deles nasceu da experiência popular, que foi depois coletada, burilada e editada por sábios profissionais desde o tempo de Salomão (950 a.C.) até dois séculos depois do exílio (400 a.C.). Foram atribuídos ao rei Salomão por causa de sua fama de sábio (1Rs 3-5) mas, se olharmos atentamente os vários subtítulos que aparecem no livro, podemos facilmente distinguir nove coleções, provindas de tempos e mãos diferentes.
PARA QUEM? (2-6)
Os provérbios foram escritos para o povo de Israel, mas sua sabedoria é universal e atemporal, aplicando-se as pessoas que buscam viver de maneira prudente e justa.
PARA QUÊ?
Os versículos 2 a 6 do capítulo 1 de Provérbios delineiam claramente os objetivos do livro e a natureza da sabedoria que ele procura transmitir. Estes versículos explicam que os provérbios foram escritos para "ensinar a sabedoria e a disciplina, para entender as palavras de inteligência" (v.2). A sabedoria aqui abordada não é meramente teórica, mas prática e aplicável à vida cotidiana.
Além disso, estes versículos enfatizam a importância de receber "instrução prudente, viver com retidão, justiça e equidade" (v.3). A sabedoria, conforme descrita em Provérbios, é intrinsicamente ligada à moralidade e à justiça social. É uma sabedoria que busca não apenas o benefício individual, mas também o bem comum e a harmonia na comunidade.
Os versículos 4 e 5 destacam a aplicação da sabedoria tanto para os inexperientes quanto para os sábios: "para dar aos simples prudência e aos jovens conhecimento e bom senso" (v.4) e "se o sábio lhes der ouvidos, aumentará seu conhecimento, e quem tem discernimento obterá orientação" (v.5). Isso sugere que a sabedoria é um processo contínuo de aprendizado e crescimento, acessível a todos, independentemente do nível de experiência ou conhecimento prévio.
Finalmente, o versículo 6 menciona a interpretação dos "provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios." Isso indica que a sabedoria contida em Provérbios não é sempre evidente à primeira vista e requer reflexão e discernimento para ser plenamente compreendida e aplicada.
Em suma, Provérbios 1.2-6 estabelece a base para o propósito e a utilidade do livro, convidando os leitores a embarcarem numa jornada de aprendizado contínuo e aplicação prática da sabedoria divina em suas vidas.
O TEMOR DO SENHOR (7)
O versículo 7 do capítulo 1 de Provérbios afirma: "O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos [insensatos] desprezam a sabedoria e o ensino [a disciplina]." Este versículo destaca a importância fundamental do temor do Senhor como a base para toda verdadeira sabedoria e conhecimento.
No contexto bíblico, o "temor do Senhor" não se refere a um medo aterrorizante, mas sim a um respeito reverente e uma atitude de submissão e adoração a Deus. Reconhecer a soberania e a santidade de Deus é essencial para adquirir sabedoria, pois isso coloca a pessoa em uma posição de humildade e abertura para aprender e seguir os caminhos divinos. O temor do Senhor também implica um desejo profundo de viver de acordo com a Sua vontade, evitando o mal e buscando a justiça.
E algo que precisa ficar totalmente gravado nas nossas mentes e corações é que o princípio, o início de uma boa vida, começa com o temor de Deus. Temer a Deus não é viver com medo de quem Deus é, mas temer a Deus é antes de tudo ter a noção de Sua grandeza e majestade. Deus é o senhor de tudo, o rei soberano, é o criador, e portanto, o que Ele diz é o que importa. Os homens não são guiados pela sua própria vontade, mas o correto é que considerem como Deus quer que vivam. (Vitor Costa. In: https://www.ibmarape.org.br/profile/a4cdb733-cfd0-47cf-8725e18b3a84a0e8/profile)
Em resumo, o temor do Senhor é o fundamento sobre o qual se constrói todo o conhecimento e a sabedoria verdadeira, guiando as pessoas a uma vida de retidão e devoção.
O PREGÃO DA SABEDORIA
Texto: Pv 1.20-30 (NAA)
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Sabedoria grita nas ruas; nas praças, levanta a sua voz.
21 Do alto das muralhas clama, à entrada dos portões e nas cidades profere as suas palavras:
22 "Até quando vocês, ingênuos, amarão a ingenuidade? E vocês, zombadores, até quando terão prazer na zombaria? E vocês, tolos, até quando odiarão o conhecimento?
23 Deem ouvidos à minha repreensão;
eis que derramarei o meu espírito sobre vocês e lhes darei a conhecer
as minhas palavras.
24 Mas porque clamei, e vocês se recusaram a ouvir; porque estendi a minha mão, e não houve quem atendesse;
25 — pelo contrário, rejeitaram todo o meu conselho e não quiseram a minha repreensão —
26 também eu darei risada da desgraça de vocês; ficarei zombando quando chegar o terror,
27 quando o terror chegar como a tormenta, quando a calamidade chegar
como o redemoinho, quando lhes sobrevierem o aperto e a angústia.
28 Então eles me invocarão, mas eu não responderei; sairão à minha procura,
porém não me encontrarão.
29 Porque odiaram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor;
30 não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão.
31 Portanto, comerão do fruto da sua conduta e dos seus próprios conselhos
se fartarão.
32 Os ingênuos são mortos porque se desviam da sabedoria; os tolos são destruídos por estarem satisfeitos
consigo mesmos.
33 Mas o que me der ouvidos habitará seguro, tranquilo e sem temor do mal."
Por que pregão da Sabedoria? Porque a Sabedoria fala em alto e bom som para que todos possam ouvir!
E onde a Sabedoria fala? Nas ruas lotadas e lugares públicos, onde pessoas ocupadas se reúnem para cuidar dos negócios da vida. A sabedoria não está presa na academia, ou nas escolas, ou nos círculos intelectuais de pesquisas ou de saber, ou mesmo nas instituições religiosas, mas está livre para ser adquirida onde as pessoas estão. É mensagem para a vida, onde a vida acontece, "nas esquinas das ruas barulhentas" (Pv 1.21 - NVI). A Sabedoria vai inclusive para os portões da cidade, onde os líderes do povo faziam as transações comerciais oficiais. Não importa onde as pessoas estejam, elas precisam ouvir o chamado da Sabedoria.
Para quem a Sabedoria fala? Para três tipos de pessoas: 1) os ingênuos [simples, na ACRF; tolos, na AEC; néscios, na ARA; ], os zombadores [escarnecedores, na ACRF] e os tolos [insensatos, na ACRF; loucos, na AEC] (v. 22). Os ingênuos ou simples são os que creem em tudo e não examinam nada. 2) Os zombadores ou escarnecedores, por outro lado, pensam que sabem tudo e riem das coisas que são realmente importantes. Enquanto o ingênuo tem um olhar vazio no rosto, o zombador ostenta um sorriso de escárnio. 3) Os tolos ou insensatos são aqueles que desconhecem a verdade porque são ignorantes e obstinados. Seu problema não é um QI baixo ou uma educação deficiente, mas a falta de desejo espiritual para buscar e encontrar a sabedoria divina. Os tolos desfrutam de sua tolice mas não sabem o quão insensatos eles são! A atitude deles é puramente materialista e imediata. Odeiam o conhecimento e não se interessam pelas coisas eternas.
O que a Sabedoria diz a essas pessoas? Primeiro, ela traz uma repreensão contra elas (1.22) perguntando por quanto tempo elas pretendem se manter nessa condição existencial. Até quando? Essa é a pergunta. Então a Sabedoria aponta uma saída para a situação dessas pessoas: converter-se (dar ouvidos) à Sabedoria, e esta lhes dará o seu espírito, o qual possibilitará o conhecimento das palavras do saber. A Sabedoria se dirigiu a essas categorias de pessoas mais uma vez, mas elas se recusaram a ouvir - o que fará com que atraiam para si situações tão difíceis e complexas, em que não lhes será possível alcançar uma solução, pois rejeitaram a Sabedoria que lhe fora oferecida em tempo oportuno.
Aqui cabe ressaltar o contraste que o texto nos apresenta: o escritor diz: ... odiaram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor. Ele ressalta que o conhecimento se relaciona com o temor do Senhor, isto é, quando as pessoas já não têm mais reverência a Deus, quando se afastam dele e criam para si ídolos segundo o seu próprio coração (quando não transformam Deus num ídolo) para atender aos seus desejos egoístas, eles perdem o conhecimento e se encaixam numa das categorias que o texto aponta (ingênuos, tolos e zombadores). Por outro lado, aqueles que dão ouvidos à Sabedoria vivem em segurança (com paz interior), sem medo do mal que campeia pelo mundo.
Sejamos, pois, sensíveis à sabedoria divina, para que vivamos em paz e possamos fazer a diferença no mundo. Atendamos ao pregão da Sabedoria e sejamos sábios!
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Texto: Pv 2.1 a 5
Meu filho, se você aceitar as minhas palavras
e guardar no seu coração os meus mandamentos;
2 se você der ouvidos à sabedoria
e inclinar o seu coração ao entendimento;
3 sim, se você pedir inteligência
e gritar por entendimento;
4 se buscar a sabedoria como a prata
e a procurar como se procuram tesouros escondidos,
5 então você entenderá o temor do Senhor
e achará o conhecimento de Deus. (NAA)
Quero adaptar aqui a análise do Rev. Rev. André C. B. Lima (https://ump.org.br), que propõe a metáfora de um pai fazendo exigências ao pretendente que deseja desposar a sua filha (a sabedoria). De fato, no contexto de Provérbios, os emissores são os progenitores – pai e mãe (Pv 1.8) e representam o sábio, o que pode dar instruções e ensinar aos mais jovens o caminho da sabedoria. Então, sabendo que o locutor é um pai ou uma mãe que determina condições ao seu interlocutor, o relacionamento com a sabedoria só será viável se as premissas estabelecidas forem cumpridas. Neste caso o interlocutor é cada de nós que está tentando se aproximar da sabedoria, mas, para isso, precisa, segundo o capítulo 2.1-5, cumprir quatro requisitos que são: aceitar, dar ouvidos, pedir e buscar.
Antes de entrarmos no que o autor do texto nos quer ensinar, precisamos entender que o autor propõe aqui uma espécie de progressão nos verbos que são apresentados. Começa com a premissa de que a pessoa deve aceitar o ensino, depois dar ouvidos a ele, pedir por aprofundamento e, por fim sair em buscar da sabedoria. Tudo isso funciona como uma espiral: vai num crescendo que termina com o entendimento do que seja o temor do Senhor (que é o conhecimento de Deus).
Vale uma explicação importante quanto à disposição do texto: está estruturado como um poema hebraico que funciona em versos paralelos, ou seja, cada estrofe (nas nossas traduções o equivalente a um versículo) tem um primeiro verso propondo um tema que é reafirmado e aprofundado no verso seguinte. No nosso texto, os cinco versículos estão organizados desse modo, formando uma só frase ou sentença. Veja o infográfico abaixo:
O primeiro verbo (e primeira exigência) é aceitar. E o que deve ser aceito? Evidentemente as palavras do pai ou da mãe, do sábio, segundo o contexto. Mas não é só um simples consentimento, uma espécie de predisposição mental. A segunda parte do versículo, em paralelo com a primeira, ajuda a entender a ênfase do autor: "se aceitares as minhas palavras e guardar no seu coração os meus mandamentos". A versão ARA emprega o verso esconder no lugar de guardar. Logo, o sentido do verbo aceitar (reforçado por guardar ou esconder) é que as palavras ou mandamentos se tornem parte da vida.
Vamos para a segunda exigência: "se você der ouvidos à sabedoria". A proposta, é reforçada pela sequência do verso: "e inclinar o seu coração ao entendimento". O coração é entendido como o centro da pessoa, o lugar onde se encontram os pensamentos, sentimentos, desejos, intenções e decisões. É também o centro da vida afetiva, onde se vivem as emoções, como a alegria, a tristeza, a dor, a raiva, a tranquilidade, entre outras. O que se quer dizer aqui é que a atenção voltada para a sabedoria é a inclinação de toda a nossa vida e nosso ser para ela.
A terceira exigência aparece da seguinte forma: "se você pedir inteligência", com ênfase na continuação "e gritar por entendimento". A versão ARA usa o verbo clamar no lugar de pedir, o que combina melhor com o verbo gritar da segunda parte. Este pedir ou clamar deve ser entendido como uma oração de alguém que se aproxima do Senhor reconhecendo a necessidade da sabedoria em sua vida.
A quarta e última exigência é buscar a sabedoria como a prata e acompanhada pela instrução de procurar como tesouros escondidos. Citando o Rev. André C. B. Lima [https://ump.org.br]: “A comparação aqui não poderia ser mais clara e mais desafiadora para o coração humano, pois o ímpeto e a disposição que temos para procurar recursos materiais deveria ser empregada na mesma medida (ou em lugar de) para adquirirmos a sabedoria, até porque o lucro que ela dá é muito mais precioso: a vida (Pv 3.14; Ec 7.12).”
A conclusão apresentada pelo texto é a de que todas essas exigências têm como objetivo o disposto no versículo 5: "então você entenderá o temor do Senhor e achará o conhecimento de Deus". O paralelismo dá ênfase à importância do temor do Senhor, ligando-o com o conhecimento de Deus. Ou seja, toda a sabedoria e o esforço de encontrá-la atinge o seu objetivo no conhecimento de Deus, a que se resume o temor do Senhor.
Que Deus abençoe a todos e todas.
PROVÉRBIOS 2.1-5 - PARALELISMO
Versículo ou estrofe Verso 1 ou primeira oração Verso 2 ou segunda oração
1 se aceitares as minhas palavras e esconderes contigo os meus mandamentos;
2 se você der ouvidos à sabedoria e inclinar o seu coração ao entendimento;
3 sim, se você pedir inteligência e gritar por entendimento;
4 se buscar a sabedoria como a prata e a procurar como se procuram tesouros escondidos,
5 então você entenderá o temor do Senhor e achará o conhecimento de Deus.
Sabedoria de graça?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 2.6-10 [NVI]
6 Pois o Senhor é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento.
7 Ele reserva a sensatez para o justo; como um escudo protege quem anda com integridade,
8 pois guarda a vereda do justo e protege o caminho de seus fiéis.
9 Então você entenderá o que é justo, direito e certo, e aprenderá os caminhos do bem.
10 Pois a sabedoria entrará em seu coração, e o conhecimento será agradável à sua alma.
Pode parecer uma contradição afirmar que a sabedoria é concedida de graça por Deus como um dom a ser recebido pela pessoa, pois o trecho anterior (vv.1-5) pareceu colocar sobre o ser humano a responsabilidade de uma busca voraz pelo conhecimento como condição de obtê-la. Aliás, falamos sobre as quatro exigências da sabedoria – condições estabelecidas para as pessoas que desejam alcançar a sabedoria.
No entanto, não há contradição alguma. As duas verdades trabalham juntas: as pessoas devem buscar a sabedoria de Deus, sabendo que é Ele, o Senhor, quem a concede. É nesse sentido que o apóstolo Tiago, na sua Carta, aconselha: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.” (Tg 1.5 – NVI) Também o apóstolo Paulo, quando lista os dons espirituais em 1Coríntios 12, a partir do versículo 8, menciona em primeiro lugar, que “Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de conhecimento, pelo mesmo Espírito [...]”
Se a sabedoria é um dom que Deus concede a quem dela precisa ou busca para a sua vida, então não precisamos nos preparar, nem estudar tanto, nem ter uma formação acadêmica aprimorada, nem pesquisar, entre outras coisas. Ouve-se muito isso ultimamente nas igrejas. Parece que Deus quer pessoas ignorantes e crédulas (eufemisticamente chamando isso de fé).
Precisamos fazer algumas considerações a esse respeito:
1ª. – O apóstolo Paulo diz: “Examinem todas as coisas, retenham o que é bom.” (NAA) O que é necessário é que haja discernimento – e isso é o que a sabedoria, dom divino, proporciona aos que têm fé. Não é tornar-se ignorante, mas buscar o conhecimento em todos os sentidos, nas áreas relacionadas à sua vocação.
2ª. – Não é atoa que a Bíblia traz vários livros chamados de livros de sabedoria, tais como Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (entre outros).
Isso demonstra que a busca pelo conhecimento sempre foi importante para o povo de Deus.
3ª. – A dádiva – a graça – da sabedoria, que vem de Deus não é para qualquer um, mas para aqueles/as que o amam, pelo que se diz que “ele reserva a sensatez para o justo”. Assim, concedendo-lhes a sabedoria da sua Palavra e fazendo com que ela os guie através dos perigos do mundo, ele “protege quem anda com integridade, pois guarda a vereda do justo e protege o caminho de seus fiéis”.
4ª. – A busca pela sabedoria requer, portanto, um relacionamento pessoal com Deus, por meio do qual “você entenderá o que é justo, direito e certo, e aprenderá os caminhos do bem”.
A conclusão de tudo o que foi exposto aqui é que devemos fazer tudo que for possível e estiver ao nosso alcance para aprender e pôr em prática a sabedoria — e, por outro lado, precisamos depender da graça Deus para alcançar tal benefício.
Por fim, o resultado é que “a sabedoria entrará em seu coração e o conhecimento será agradável à sua alma”.
Deus abençoe a sua vida.
A FONTE DA VIDA
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 3.1-2
1Meu filho, não se esqueça dos meus ensinos,
e que o seu coração guarde os meus mandamentos,
2 porque eles aumentarão os seus dias
e lhe acrescentarão anos de vida e paz. (NAA)
A procura pela fonte da juventude vem desde a Antiguidade, passando pela Idade Média, sendo intensificada na época da Renascença, sempre alimentada pelas lendas de que, em algum lugar, haveria uma nascente, um poço ou um rio, cujas águas seriam capazes de conceder, a quem delas bebessem ou nelas se banhassem, o prolongamento da vida.
Foi motivado por esse mito que, em março de 1513, partindo de Porto Rico, o explorador espanhol Juan Ponce de Leon saiu em busca de uma ilha conhecida como Bimimi, pois lá estaria uma suposta fonte mágica com águas rejuvenescedoras. Ele encontrou a ilha, mas não a fonte. No mês seguinte, ele partiu para a Flórida, onde hoje fica atualmente a cidade de Saint Augustine (a cidade mais antiga dos Estados Unidos) e onde estariam as tais águas mágicas. Evidentemente não era a fonte da juventude, tudo não passava de mito.
Até hoje, de certa forma, o mito contamina a ciência e as pesquisas com células-tronco, que prometem rejuvenescer tecidos em laboratório. Segundo Ryan K. Smith, professor de história da Virginia Commonwealth University, dos EUA, o conto é tão atraente que sobrevive de qualquer maneira. "As pessoas estão mais intrigadas pela história de olhar e não encontrar [a fonte] do que com a ideia de que a fonte realmente pode estar em algum lugar por aí", comentou Smith. (CENTAMORI, Vanessa. Do século 16 ao século 21: a eterna busca pela milagrosa fonte da juventude. Aventuras na História. In: https:/Iaventurasnahistoria.com.br)
Além das pesquisas científicas, mencionadas anteriormente, tentando fazer tudo ao seu alcance para tentar barrar o inevitável poder da morte, o chamado mercado de cosméticos fatura em cima da ideia de que é possível adiar indefinidamente o envelhecimento.
Há também religiosos que prometem milagres com hora e lugar marcados, que procuram levar as pessoas a acreditarem que vão conseguir tudo o que desejam em seu coração em troca de uma doação (em dinheiro, de preferência) aos manipuladores da fé. Deus, com certeza, muitas vezes, opera milagres, mas segundo sua vontade, no tempo e lugar que Ele determina e para pessoas que só Ele conhece e atende.
Em geral as pessoas que mais procuram uma vida longa são justamente aquelas que desprezam a forma como isso pode acontecer.
Como temos visto aqui em nossas devocionais, é a Sabedoria quem fala, orientando os seus ouvintes: "Meu filho, não se esqueça dos meus ensinos, e que o seu coração guarde os meus mandamentos". Não se referem a mera recordação, mas a algo que possa fazer parte da vivência, integrado ao mais essencial da vida. Ensinos e mandamentos internalizados da sabedoria se externam na prática da justiça, da retidão dos atos, do amor ao próximo, como expressão do temor do Senhor.
Mais ainda: há um resultado imensamente importante e desejável. O benefício que o emprego da sabedoria produz é o mesmo que foi almejado no passado por muitos aventureiros, como o já citado Ponce de Leon, tanto que seus bons conselhos "aumentarão os seus dias e lhe acrescentarão anos de vida e paz." A sabedoria previne a pessoa do mal e proporciona a graça de Deus com bênçãos segundo seus desígnios, que vão além de longevidade e abrangem também "prosperidade e paz", palavras que, no Antigo Testamento, denotam uma vida tranquila e proveitosa. Portanto, você deve escolher se quer ficar correndo atrás dos "milagres" e dos milagreiros, sejam eles da ciência ou da religião, ou se quer viver sob a bênção de Deus que é fruto da sabedoria. A sua escolha é que dirá se você é sábio ou tolo.
Deus abençoe a sua vida.
DEVOCIONAL EM PROVÉRBIOS
CONFIANÇA NO SENHOR
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 3:5-8 [NAA]
⁵ Confie no Senhorde todo o seu coração e não se apoie no seu próprio entendimento.
⁶ Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.
⁷ Não seja sábio aos seus próprios olhos; tema o Senhor e afaste-se do mal.
⁸ Isto será como um remédio para o seu corpo e refrigério para os seus ossos.
A ênfase do texto de Provérbios está centrada no princípio da confiança no Senhor - e no seu contraponto, a desconfiança, aqui explicitada no apoiar-se em seu próprio entendimento, ou seja, tentar ser sábio "aos seus próprios olhos" .
Cabe aqui uma ilustração: Um homem que vendia aspiradores bateu à porta de uma casa em uma localidade bastante remota. Quando a dona da casa abriu a porta, ele entrou e jogou um saco de sujeira no chão. "Agora", vangloriou-se o vendedor, "eu quero fazer um trato com você: se este novo e maravilhoso aspirador não pegar toda essa sujeira, eu vou comer o que sobrou". "Aqui está uma colher", disse a dona da casa, "pois não temos qualquer eletricidade aqui". A confiança desse vendedor em seu método falhou dessa vez por pura tolice.
O livro de provérbios contém vários princípios práticos para vida das pessoas, e um deles é a confiança
em Deus e não em si mesmo. Se esse princípio for repetido constantemente, produz uma série de vantagens para o ser humano, para que este possa viver uma vida piedosa, calma, alegre e com imensa satisfação no Senhor. Além disso, a confiança em Deus gera transformação que ocorre em diversas áreas da vida do indivíduo, desde que o reconheça como Senhor. Reconhecimento que vai além da mera aceitação intelectual, sendo uma entrega vital, consciente, a Deus para que Ele assuma o controle da sua existência.
Por outro lado, a desconfiança no Senhor, pode gerar muitas situações desagradáveis e desenvolver uma série de dificuldades como medo, insegurança, ira, angústia, entre outras.
Uma estória para ilustrar: Era uma vez um sujeito que se endividou muito e foi condenado a saldar suas dívidas de uma só vez, sob pena de ser preso. Coincidentemente, nesta mesma época um outro indivíduo recebeu a mesma sentença. Apesar de seus esforços, nenhum deles conseguiu empréstimo em alguma instituição de crédito nem com seus parentes. E o dia fatal ia-se aproximando rapidamente.
Coincidentemente, também, cada um deles tinha um amigo de infância que era rico e, na noite anterior ao prazo fatal, decidiram lhe telefonar pedindo socorro. O primeiro ouviu de seu amigo que podia ficar tranquilo, pois tinha o dinheiro disponível e iria lhe emprestar a quantia necessária logo de manhã. Aliviado, deitou-se em sua cama e dormiu feito criança, pois seu amigo era uma pessoa de palavra. O segundo ouviu de seu amigo a mesma coisa, mas não conseguiu dormir, pois seu amigo era daquele tipo pessoa que promete as coisas, mas não cumpre o prometido. Era um "velhaco" que já havia falhado com ele antes; indigno de confiança.
Moral da história: Quando pedimos algo a Deus e continuamos preocupados, na prática estamos lhe
dizendo que Ele não é digno da nossa confiança; que Deus é um velhaco - o que Ele não é.
A confiança e a desconfiança geram algumas características que valem a pena olharmos para nossas vidas, e com reflexão e coragem, reconhecermos quais sintomas tem rondado nosso coração, a confiança ou desconfiança: Para clamarmos a Deus por uma vida tranquila e segura Nele, sabendo que Deus não é um velhaco.
Oração: "Senhor, ajuda-nos a confiar em ti todos os momentos das nossas vidas para desfrutar de
uma vida calma, tranquila, alegre e com satisfação em Ti". Amém!
QUEM PODE SER SÁBIO?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 4.5
Adquira sabedoria
e aprenda a ter discernimento;
não se esqueça de minhas palavras
nem se afaste delas. (NVT)
O que é que você tem feito ou fará hoje para obter sabedoria e entendimento? O sábio, neste texto, assumiu a figura de um pai que exorta o seu filho a obter sabedoria, a lembrar da sabedoria e a seguir a sabedoria. Em outras palavras, a sabedoria, como uma forma de discernimento, é oferecida às pessoas. Você tem, pelo menos, um desejo de vivenciar este provérbio em sua vida? Se a resposta for positiva, então é um bom começo, restando apenas seguir as instruções nele contidas.
Este provérbio contém QUATRO instruções que podem ser reduzidas a DUAS. Como já pontuamos, no segundo devocional que fizemos, o escritor de Provérbios emprega, em muitos casos, a estrutura do poema hebralco, em que o verso seguinte retoma o tema do anterior empregando termos sinônimos a fim de reforçá-lo. Nesse texto que lemos é assim. Para se tornar sábio, diante de Deus e das pessoas, você tem que adquirir sabedoria e aprender a ter discernimento; você não pode se esquecer da sabedoria (uma vez que você a adquire) e não deve se afastar dela. Vamos esclarecer cada uma dessas instruções.
1) Obter sabedoria e ter discernimento pressupõe ir à sua fonte, que são, sem dúvida, as escrituras sagradas, onde cada pessoa pode se instruir, lendo e aprendendo os ensinos que podem orientar o seu modo de viver e se relacionar, não só com Deus, mas também com as pessoas de seu convívio. Isso não exclui a busca por ajuda, seja em literatura, seja em conselhos dos mais experientes, seja na formação acadêmica ou educacional. Tudo isso contribui para apreender a ter discernimento, já que o saber nunca é excludente, mas inclusivo.
2) Lembrar da sabedoria e não se afastar dela. Não esquecer é lembrar, e lembrar é não se afastar do aprendido, das palavras da sabedoria adquirida. Depois que mergulhamos nas Escrituras, que absorvemos os seus ensinos, que aprendemos a discernir o que convém ou não para a nossa vida e para a comunidade a que pertencemos; depois de ter uma formação que nos habilita a exercer uma profissão, o que precisamos é colocar o conhecimento em prática no nosso cotidiano.
3) lembrar é não deixar de praticar e não se afastar da sabedoria, principalmente daquela adquirida a partir do ouvir (ou ler) a palavra de Deus; é exercitar o aprendido nas ações diárias. Os princípios do Reino de Deus, tão claros nos evangelhos, devem ser os referenciais da nossa existência: o amor, a paz, a retidão, a alegria, a bondade e a abertura para aprender sempre. Somos seres inacabados e, como tais, estamos em incessante formação ao longo da vida. É círculo virtuoso: aprendemos, colocamos em prática e aprendemos na prática e com a prática, e assim por diante. Lembremos disso sempre.
Agora podemos responder a nossa questão inicial: que pode ser sábio? Se você tem o desejo de aprender, a sabedoria se oferece a você, não importa o seu grau de instrução ou formação, pois ela está sempre à disposição para ensinar. Noutras palavras, toda pessoa pode obter sabedoria, desde que se dedique a ler, estudar e ouvir as palavras das escrituras sagradas e procurar conhecer os princípios de vida nelas contidos.
Faça isso então! Deus o abençoe.
VALE A PENA O ESFORÇO?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 4.7-9:
“O conselho da sabedoria é: procure obter sabedoria;
use tudo que você possui para adquirir entendimento.
Dedique alta estima à sabedoria, e ela o exaltará;
abrace-a, e ela o honrará.
Ela porá um belo diadema sobre a sua cabeça
e lhe dará de presente uma coroa de esplendor” (NVI).
Nós temos, em nossa pequena casa, que fica em um condomínio rural, um pé de primavera ou bougainvillea, que recebe sempre a presença de beija-flores, que são, provavelmente, os menores pássaros do mundo. No entanto, o seu voo é extremamente ágil e veloz, de tal modo que é difícil observá-los. Sua visita é parte de sua procura por alimento, que se dá por meio da busca de nutrientes em aproximadamente 1.500 flores por dia — uma tarefa impressionante. Durante o processo de extração do néctar das flores, o beija-flor acaba carregando o pólen de uma flor para outra, auxiliando o processo de polinização. Assim, enquanto se alimenta, ele contribui para a fecundação das flores, mantendo uma relação de simbiose.
O mesmo se dá com as abelhas: elas são responsáveis pela polinização de muitas plantas, o que é vital para a humanidade, pois melhora a qualidade dos sistemas de produção agrícola, já que são os principais agentes de polinização na natureza. Além disso são responsáveis pela regeneração das florestas e manutenção da biodiversidade. Todo esse esforço é para a produção do mel, alimento que sustenta toda a colmeia. Para isso uma abelha visita em média entre 50 e 1.000 flores por dia.
Essa relação de simbiose entre seres vivos exemplifica parcerias de todos os níveis que se veem ao nosso redor todos os dias. O texto de Provérbios, que citamos acima, vem ao encontro desse processo tão importante e necessário na vida das pessoas que se preocupam em adquirir sabedoria para a sua vida.
O sábio personifica a sabedoria em um convite, dizendo: “O conselho da sabedoria é: procure obter sabedoria”. É um interessante jogo de palavras, que tem como ênfase na sequência o reforço do conselho anterior, quando diz: “Use tudo que você possui para adquirir entendimento”. Isso deixa claro o fato de que não é possível atingir a sabedoria sem esforço, o que inclui a jornada para conhecer a Palavra de Deus e a luta pessoal e espiritual para submeter os impulsos humanos às orientações divinas.
Realmente, é trabalhoso! Parece o trabalho de abelha, ou de beija-flor! Mas esse esforço vale a pena? A sequência do texto diz que sim, pois a sabedoria, tão custosa para ser buscada, promove uma contrapartida benéfica, como o escritor instrui: “Dedique alta estima à sabedoria, e ela o exaltará; abrace-a, e ela o honrará”. O Pr. Thomas Tronco afirma: “O sábio e a sabedoria mantêm um relacionamento de duas mãos no qual o sábio valoriza e busca a sabedoria enquanto essa o protege e o ajuda a seguir por caminhos que o beneficiam.” (https://www.igrejaredencao.org.br/ibr)
Desse modo, cada pessoa não pode esperar ser sábia sem se dedicar a Deus e aos seus ensinos, esforçando-se para colocá-los cotidianamente em prática e manter-se inteiramente na dependência de Deus para executar uma tarefa tão complexa. Por outro lado, ninguém deve desprezar os efeitos positivos da sabedoria bíblica em sua vida, não apenas transformando seu caráter, mas fazendo a pessoa trilhar o caminho demarcado pelas Escrituras. Afinal, é uma relação de mão dupla, assim como a simbiose que há entre os seres vivos. Depois disso, é só esperar as bênçãos de Deus florescerem na sua vida e se deleitar com o néctar da palavra de Deus que alimenta cada pessoa que procura a sabedoria vinda do alto.
Que Deus abençoe a sua vida.
FIEL A QUEM?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 5.15-19 (NVI)
15 Beba das águas da sua cisterna, das águas que brotam do seu próprio poço.
16 Por que deixar que as suas fontes transbordem pelas ruas, e os teus ribeiros pelas praças?
17 Que elas sejam exclusivamente suas, nunca repartidas com estranhos.
18 Seja bendita a sua fonte! Alegre-se com a esposa da sua juventude.
19 Gazela amorosa, corça graciosa; que os seios de sua esposa sempre o fartem de prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela.
A metáfora da água, no texto lido anteriormente, tem a finalidade didática de expor a prática correta de homens e mulheres casados em seu relacionamento conjugal. Assim, o escritor ordena: “Beba das águas da sua cisterna, das águas que brotam do seu próprio poço”. Esse é um chamado à fidelidade conjugal. Nessa figura, a esposa é representada como a água que sacia a sede do seu marido. Um modo mais literal de expor a mesma coisa é dito pelo escritor na frase “alegre-se com a esposa da sua juventude”, ou seja, aquela que o homem tomou para si no passado, sem substituí-la por outra. O sábio procura prevenir da tentação de querer saciar os desejos com outras mulheres, pois o pensamento de que outras pessoas têm apenas vantagens e não defeitos é um erro digno dos homens mais insensatos. Por isso, o sábio chama os maridos a olhar para suas esposas como uma “gazela amorosa, corça graciosa”, de modo “que os seios de sua esposa sempre o fartem de prazer, e sempre o embriaguem os carinhos dela” — a linguagem é ousada e explícita, mas apropriada ao necessário apego e deleite do casal entre si.
Se o homem deve beber e se fartar apenas do seu poço, as águas desse manancial também devem ser exclusivamente suas, pelo que o escritor pergunta: “Por que deixar que as suas fontes transbordem pelas ruas, e os teus ribeiros pelas praças?”. Essa pergunta retórica tem a intenção de expor a necessidade de fidelidade também por parte da esposa. Entretanto, o modo como essa afirmação é dirigida aos homens revela a necessidade de cuidado por parte dos maridos em relação às suas esposas, tanto ao serem fiéis como amorosos. O texto, longe de justificar qualquer infidelidade feminina, parece informar que a falta de amor e de cuidado por parte dos homens serve de incentivo para que as mulheres busquem fora de casa o que não encontram em seu casamento. Já que isso é inaceitável, marido e esposa devem completar a vida um do outro, fazendo com que tais águas “sejam exclusivamente suas, nunca repartidas com estranhos”. Portanto, não se iluda com as enxurradas caudalosas que carregam lama por toda parte, mas valorize e cuide do poço que Deus lhe deu para saciar sua sede e refrescar sua vida, de modo que “seja bendita a sua fonte!”.
O extenso e consistente ensino sobre o mal do contato sexual extraconjugal leva a questionamentos sobre a natureza do provérbio e sua relação com os materiais jurídicos. Deve-se levar em conta que a forma do provérbio não comunica inerentemente uma instrução que seja universal e sempre válida. O provérbio é uma forma sensível ao tempo e às circunstâncias. No entanto, o ensinamento sobre como evitar relações extraconjugais é sempre e sem exceção verdadeiro. Não há fatores atenuantes que o tornem um comportamento aceitável. Aqui simplesmente pode-se confirmar a relação entre lei e sabedoria.
Devemos abordar também, um pouco, a questão teológica. É verdade que Yahweh [Senhor] só será mencionado no v. 21, adiante, e descrito como sempre observando o comportamento humano para motivar o filho a permanecer no caminho certo (v. 21). Em toda a Bíblia, a metáfora do casamento é usada para o relacionamento com Deus. O ponto comum de referência é que eles são os dois únicos relacionamentos mutuamente exclusivos que os humanos desfrutam, isto é, ter um único cônjuge e um único Deus: Javé.
Talvez o aspecto mais difícil do ensino do livro sobre relações sexuais ilegítimas tenha a ver com a perspectiva masculina. Em resposta, fazemos bem em lembrar que o livro foi escrito para homens, especialmente para homens que estavam no caminho que leva à sabedoria. Não foi dirigido a tolos. Esses jovens que eram os destinatários dos ensinamentos do sábio podiam passar da condição de sábios para tolos tornando-se predadores sexuais, mas por enquanto, na imaginação do discurso, não eram.
Como já foi dito anteriormente, o provérbio é uma forma sensível ao tempo e às circunstâncias. Por isso é preciso adequar o seu ensinamento ao tempo em que vivemos, isto é, a fidelidade não é só do homem à mulher, mas também da mulher ao homem. Ambos devem beber do mesmo poço de água limpa, e usufruir do prazer e da alegria que o relacionamento conjugal pode proporcionar.
Que Deus abençoe a todos e todas.
METE A CARA NA FORMIGA!
4 lições para aprender com a formiga em Provérbios sobre produtividade
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 6.6-8
Vai ter com a formiga, preguiçoso!
Observa o seu comportamento e aprende!
7 Ainda que não tenha nem chefe,
nem governador, nem superior,
8 contudo, sabe que deve trabalhar bem no verão,
juntando alimento, tendo em vista o inverno.
9Mas tu, preguiçoso, tudo o que sabes fazer é dormir!
Quando é que te levantas e despertas?
10 “Deixa-me dormir mais um bocado!”
E continuas, pestanejando mais um bocado,
cruzando mais um bocado os braços,
ficando mais um bocado na cama!
11 É assim que a pobreza te chegará,
como um ladrão, sem te dares conta;
a miséria te destruirá,
como por um bandido armado.
Na Missão Jovem, que era uma comunidade terapêutica, há muitos anos, os jovens tinham tarefas a serem executadas ao longo do dia. Num certo momento surgiu uma discussão entre dois internos, em que um tentava mostrar ao outro a necessidade de realizar as suas incumbências, ao que o interlocutor rejeitava. Num determinado ponto, já perdendo a paciência, o jovem cita o texto bíblico: “Está escrito em Provérbios: mete a cara na formiga, vagabundo!” Todos ao redor começaram a rir, dando um fim jocoso àquela querela sobre trabalho. É engraçado, mas tem seu fundo de verdade: muitas vezes é preciso “meter a cara”, não na formiga, senão nas oportunidades e possibilidades que a vida se nos apresenta, saindo da imobilidade para a ação.
“Vai ter com a formiga…”. Para nos ensinar o perigo da preguiça em nossas, Deus aponta para uma fonte de ensino um ser tão pequeno. Ele nos diz, para aprender lições valiosas com a formiga.
O tema de Provérbios é sobre sabedoria. Ao longo do livro, o autor de Provérbios contrasta sabedoria e loucura por meio de tipos de caráter. Um desses tipos de personagem é a formiga, vista positivamente como um modelo de produtividade.
A formiga é mencionada algumas vezes em Provérbios, principalmente em Provérbios 6:6-8:
O autor contrasta os caminhos do preguiçoso com os da formiga e pede ao preguiçoso que considere os caminhos da formiga e mude. Se você quiser aprender com a formiga, aqui estão alguns tópicos a serem considerados.
O que aprendemos sobre produtividade com a formiga em Provérbios? Veja as lições:
1. As formigas nos ensinam viver uma vida exemplar.
Se a formiga é quem o preguiçoso deve examinar, isso significa que a formiga está vivendo uma vida digna de se imitar. Há um grande poder em um bom exemplo. Você pode não ser o/a mais atraente, o/a mais talentoso/a ou o/a mais bem-sucedido/a, mas fará muito bem a mais pessoas do que imagina se der um bom exemplo.
2. As formigas nos ensinam a tomar iniciativa.
Esta é provavelmente a maior lição que aprendemos com a formiga – o valor da iniciativa.
A formiga toma iniciativa e junta sua comida no verão sem ter nenhuma liderança sobre ela. Nenhuma regra, responsabilidade, check-ins ou descrições de trabalho são necessárias. Em seu excelente comentário sobre Provérbios, Bruce Waltke diz:
“Em vez de ter líderes externos que organizam o trabalho com relação à sua natureza e seu tempo e o acompanham até a conclusão, a formiga possui uma sabedoria dada por Deus para trabalhar e, apenas tão significativamente, para ordená-lo com sabedoria”.
Como já foi dito por outros, há uma grande diferença entre a escola e o mundo real. A escola tem a ver com o cumprimento do programa de estudos; o mundo real é sobre resultados. O plano de estudos fornecerá instruções passo a passo sobre como obter sucesso, mas o mundo real não. Embora existam muitos aspectos da vida fora de seu controle, uma coisa que você pode controlar é a frequência com que toma iniciativas.
Dito de outra forma, ser produtivo é ser proativo. Procrastinação consistente em todas as esferas da vida é um sinal de imaturidade emocional. A formiga não trabalha para avançar, mas trabalha para sobreviver. Tomar iniciativa é uma necessidade para a sobrevivência.
Você tem que aprender como fazer as coisas quando não tem orientação ou liderança. Você deve ser capaz de se autoliderar e se autogerenciar. Esta é uma das chaves para uma vida produtiva.
3. As formigas nos ensinam a não fugir das responsabilidades.
Até quando você vai ficar deitado aí, ó preguiçoso? Quando você se levantará de seu sono? Um pouco de sono, um pouco de sono, um pouco de cruzar as mãos para descansar, e a pobreza virá sobre você como um ladrão, e a necessidade como um homem armado. (Provérbios 6:9-11).
O sono é necessário para uma vida saudável. Nenhum conselho de produtividade que valha alguma coisa dirá para você evitar o sono proposital e constantemente em nome de ser produtivo. Se você precisa de nove horas de sono, durma. O que é condenado aqui não é dormir o que seu corpo exige, mas um estilo de vida que busca a fuga como meio de evitar as responsabilidades terrenas.
Paradoxalmente, escolher o caminho do preguiçoso torna a vida mais difícil, não mais fácil. Porque depois que você acordar da soneca, esses problemas ainda estarão ali.
Às vezes, os livros de produtividade fazem parecer que a produtividade é glamorosa. Embora às vezes a produtividade seja gratificante, na verdade, ser uma pessoa produtiva geralmente significa que você precisa trabalhar quando não está com vontade, acordar cedo quando preferir dormir e fazer as coisas mais difíceis primeiro. Você não pode evitar a responsabilidade e ser produtivo.
4. As formigas nos ensinam sobre planejamento.
O planejamento é recomendado no livro de Provérbios (Provérbios 11:14; 12:5; 14:8, 15; 21:5). Seus planos podem não sair como você deseja, e você pode alterá-los à medida que avança, mas deve planejar mesmo assim.
A formiga fornece sua comida de inverno no verão. Em outras palavras, ele planeja e depois age trabalhando com antecedência. É um sinal de maturidade emocional quando você pode trabalhar com diligência em um projeto hoje que só deve ser entregue daqui a seis meses.
Os cristãos que pensam que todo planejamento não é espiritual e é o oposto de ser “guiado pelo Espírito” estão enganados. Pois, é possível se planejar na direção de Deus.
Quantos ensinamentos aprendemos com uma formiga, hein? Com a formiga aprendemos a viver uma vida que vale a pena imitar, tomar iniciativa, não fugir da responsabilidade e planejar o futuro. Isso não é tudo, mas coloca você muito à frente do preguiçoso.
Devemos tomar cuidado com a propensão que temos de ser preguiçosos, tanto fisicamente quanto espiritualmente. Vá para a formiga! “Considere os caminhos dela e seja sábio”!
SE CONSELHO FOSSE BOM...
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 7.1-3 (NVT):
Meu filho, siga meu conselho;
guarde meus mandamentos como um tesouro.
2 Obedeça a meus mandamentos e viva;
cuide de minhas instruções como da menina de seus olhos.
3 Amarre-as aos dedos como lembrança
e escreva-as no fundo do coração.
Imagino que você já tenha ouvido falar nesse famigerado ditado: “Se conselho fosse bom não se dava, se vendia”. E como somos seres inventivos, claro que essa frase virou realidade.
Sabe aquele melhor amigo que você pode confiar e que tem as respostas para todas as suas dúvidas? Seu mentor será essa pessoa, com o benefício adicional de possuir experiências comprovadas.
Aqueles que têm necessidade de se organizar utilizando metas e objetivos claros a serem alcançados, optam por contratar consultorias ou coachings. Já a mentoria é direcionada para o cliente que se sente mais confortável sem pressão, com informalidade, sem uma lista de atividades, prazos e tarefas para seguir. As questões são tratadas mediante as dúvidas que vão surgindo no dia a dia do cliente, que busca uma segunda opinião em sua tomada de decisões. (Giane M. Faccin)
O capítulo sete de provérbios é direto em seu propósito: “siga meu conselho”. Com uma indicação no imperativo, Salomão discorre sobre a obediência aos mandamentos do Senhor, e traz algumas instruções:
“Guarde como um tesouro” - Guardamos como um tesouro somente aquilo que para nós tem alguma relevância, ou ocupa algum lugar de importância. Guardar os mandamentos como um tesouro é exatamente isso: deixar de olhar a obediência como um fardo, e passar a protegê-la como algo de muito valor.
“Cuide de minhas instruções como da menina de seus olhos” – Cuide com todo o cuidado possível. Cuide como quem cuida de alguém que ama verdadeiramente. A expressão “a menina de seus olhos” não deixa dúvidas: as instruções do Senhor são de fato preciosas!
.“Amarre-as aos dedos como uma lembrança” – Mas afinal, se a obediência é como um tesouro, e as instruções do Senhor são preciosas, por qual motivo existe a necessidade de “amarrar uma fita” para que nos lembremos de algo tão valioso? Salomão sabia uma verdade preciosa: obedecer não é natural para nós.
Nossos desejos pecaminosos revelam que nosso coração é carente da Graça de Deus, e que não nos é natural obedecê-lo. Somente por meio dEle podemos nos apartar do pecado e fugir dos caminhos tortuosos da desobediência. Nosso Deus sabia que nossos desejos nos levariam para a morte, e pelo seu sacrifício nos livrou dela. Por isso, guarde, cuide e lembre-se dos seus mandamentos. Nosso coração pecador pode ser transformado pelo poder do nosso Salvador!
“A constância da obediência provém de Deus, e é gerada no coração.”
Oração: “Senhor, me ensina a guardar os seus mandamentos, cuidar das suas instruções e a obedecê-las com fé e perseverança. Perdoa os meus pecados e por meio da tua Graça, transforma o meu coração. Amém!”.
O que a sabedoria tem e o que a sabedoria dá
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 8:12-17 (NVI)
¹² Eu, a sabedoria, moro com a prudência, e tenho o conhecimento que vem do bom senso.
¹³ Temer ao Senhor é odiar o mal; odeio o orgulho e a arrogância, o mau comportamento e o falar perverso.
¹⁴ Meu é o conselho sensato; a mim pertencem o entendimento e o poder.
¹⁵ Por meu intermédio os reis governam, e as autoridades exercem a justiça;
¹⁶ também por meu intermédio governam os nobres, todos os juízes da terra.
¹⁷ Amo os que me amam, e quem me procura me encontra.
Contexto bíblico-teológico
Ao abordamos a literatura sapiencial, encontramos esse aspecto discursivo tão característico do antigo Israel. Estamos nos aproximando de nada menos que a Sabedoria, a hokma de Deus, promovida e vivenciada pelos pensadores do antigo Israel (jakamim), capturada no livro de Provérbios. Dentre as muitas definições de sabedoria, chegamos a esta: “…a capacidade de gerir-se a si mesmo em todos os aspectos da vida” (Mercedes García Bachmann). “Nos livros de sabedoria bíblica, Deus é a fonte do conhecimento, o limite do conhecimento e o sujeito da reflexão; Ele é o guia da conduta humana, aquele que julga e sanciona; Ele é o autor de uma ordem religiosa regida pelos dois polos do respeito e da confiança” (L. A. Schökel e J. Vílchez L.). Diálogo, parábola, discurso, apologia, poema didático, fábula e alegoria: todos serviam ao propósito de guiar os mais jovens e inexperientes - os aprendizes - pelo caminho do bem e da justiça. Por extensão, todos nós somos agraciados por essas reflexões. A hokma, que pode ser identificada com a Torá, é apresentada como uma arauto, uma evangelista de rua que anuncia as virtudes do seu ser e exige ser ouvida (Pv 8.1-11). “Como um profeta que proclama a sua verdade em público, a sabedoria também sai às encruzilhadas e às portas das cidades para anunciar a sua mensagem; ela declara que as suas palavras são verdadeiras e dignas de confiança, e que quem a adquire pode contar com algo melhor do que um tesouro valioso. A sabedoria apresenta-se sob outra das suas facetas fundamentais: o bom senso” ( Bíblia do Nosso Povo ): “A vós, homens, clamo; / A vós, homens, dirijo a minha voz. / Crianças ingênuas, compreendei! / Jovens tolos, reconsiderai! / Ouvi-me, pois o que vos vou dizer / são coisas muito justas e importantes” (vv. 4-6). Ela é a “Senhora Sensatez”, a “Senhora Sanidade”: “aparece ao lado de Deus, criada por ele, colaborando com ele em suas grandes tarefas” (L. A. Schökel e J. Vílchez L.).
A sabedoria desses versos não é Deus nem uma divindade de sua corte (um dos benê 'elohim). É uma criatura, mas não uma entre muitas, mais uma do mundo criado, mesmo que seja a primeira. Ela vem de Deus e precede o mundo, ocupando uma posição intermediária. Depois de Deus e antes do universo, inferior a Deus e superior ao mundo. É uma pessoa real e existente, uma personificação poética, um projeto em uma mente, uma qualidade de um artesão?
O poeta [o escritor] a apresenta como uma personagem que nasce, aprende, age, brinca. Caráter poético dotado de consistência autônoma dentro do poema (Idem).
Pv 8 é um dos [discursos] mais debatidos, porque nele a Sabedoria: a) ao proclamar-se doadora de sabedoria aos reis e aos poderosos, atribui a si mesma um papel que corresponde a YHWH, cf. 1 Reis 3; e b) é apresentado como a primeira obra de YHWH ou preexistente junto a YHWH, dependendo de como esse texto tão ambíguo for interpretado. Aqui podemos apenas dizer que, seja como for, ela se proclama anterior a qualquer outra criação, deleite de YHWH, presente ao lado de YHWH e regozijando-se diante da criação, especialmente da criação humana. Vários autores descobriram nessas declarações vestígios de uma Deusa preexistente, criando junto e junto com YHWH. O texto deixou apenas vestígios, por isso é muito difícil dizer muito sobre ele (M. García Bachmann).
“Eu, a sabedoria, vivo com a prudência” (vv. 12-14)
Após a Proclamação do Bom Senso (vv. 1-11), nos encontramos diante do Hino do Bom Senso, onde o grupo assimila e promove os benefícios que o bom senso oferece: prosperidade, riquezas e honras, benefícios de um governo eficiente e justo. “Ambas as coisas e sua união são tradicionais no mundo da sabedoria” (Ibid).
A primeira qualidade da Sabedoria é a capacidade de tomar as decisões corretas, pelo que diz de si mesma: “Eu, a sabedoria, moro com a prudência, e tenho o conhecimento que vem do bom senso”. Isso quer dizer que o sábio não age de acordo com impulsos explosivos, impressões subjetivas ou sentimentos duvidosos, mas por verdades que aprendeu.
A segunda qualidade que justifica o alto valor que a Sabedoria tem é seu antagonismo ao mal, de modo que explica que “temer ao Senhor é odiar o mal; odeio o orgulho e a arrogância, o mau comportamento e o falar perverso”. Isso significa que não é possível amar a Deus (fonte da sabedoria) e aos valores de um mundo sem Deus ao mesmo tempo, nem buscar a Deus e aos próprios desejos pecaminosos. O sábio se aproxima tanto do Senhor que seu afastamento do mal é natural, tornando-o alguém diferente dos demais, por mais bem sucedidos que pareçam ser. Sua fala deve refletir a verdade, não a perversidade - aqui no sentido da falsidade. Em tempos de fake news, este é um detalhe importante. Por isso, você precisa definir muito bem o que prefere: se Deus ou à cobiça do mundo. Cada escolha produzirá reflexos nessa vida e na próxima. Daí essa decisão ser muito séria.
A sabedoria personificada tem companheiros importantes com os quais coexiste: sanidade, conhecimento e conselho. Outras traduções dizem: sagacidade ou astúcia, reflexão ou intriga. Todas elas “são como damas de companhia da Senhora Razão” (L. A. Schökel e J. Vílchez L.). Essa família de virtudes se apresenta como um verdadeiro think tank que não deve ser desperdiçado. A exortação flui imediatamente (13) e outras excelências são acrescentadas se forem necessárias: bom senso, inteligência e poder (14). Aqui vem a conexão com o que se segue: a observação das realidades sociais e políticas.
“Por mim governam os príncipes e os nobres” (vv. 15-17)
Transferir todos os benefícios do hokma para a vida humana é o objetivo de sua existência, e a tarefa do governo, uma tarefa política, não escapa aos seus poderes:
Mas esta vontade ordenadora — que é um poder (Pv 8:14) — excede em muito a esfera da configuração privada da vida. Esta sabedoria tem pretensões exorbitantes: “Por mim reinam os reis, e os poderosos decretam o que é justo; por mim governam os príncipes, e os nobres, todos os juízes justos” (Pv 8:15ss). Uma afirmação muito importante, já que quase não temos documentos textuais que se assemelhe a ela. Devemos deduzir disso que tanto a arte de governar quanto a ciência do direito — não apenas em Israel, é claro, mas em toda a Terra — devem ser referidas a esse poder ordenador (G. von Rad).
Assim, a Sabedoria, personalizada pelo escritor, diz “meu é o conselho sensato; a mim pertencem o entendimento e o poder”, de modo que ela se qualifica como apta para tornar sábios aqueles que a ouvirem e seguirem seus conselhos. O melhor exemplo disso é o modo como tais conselhos movem até os mais poderosos da sociedade no sentido de uma boa liderança, pelo que a Sabedoria diz que “por meu intermédio os reis governam, e as autoridades exercem a justiça; também por meu intermédio governam os nobres, todos os juízes da terra”. Se até esses poderosos se tornam melhores sob a tutela da sensatez, é certo que ela pode fazer o mesmo por todos nós.
As categorias de chefes, de pessoas principais, de autoridades são óbvias: os vários termos usados formam um quaternário para atingir a totalidade: reis, príncipes, governantes e nobres. Aqui são enfatizados o “caráter ético do governo” e a legitimidade dos líderes . Além disso, na tradição antiga, boa governança e prosperidade sempre andam de mãos dadas. A preocupação dos Provérbios com um governo sábio que leve ao bem-estar é constante. O bom senso, também aplicado ao governo, é um ativo altamente produtivo. Hokmá deve ser o grande conselheiro de políticos e governantes. “À razão formal acrescenta-se a substantiva: falar aqui de governantes legítimos não acrescenta nada; por outro lado, insistir na justiça como programa de governo é uma convicção sábia e profética (ver 16:12; 25:5 e Isaías 11:5)” (L.A. Schökel e J. Vílchez L.).
Amo os que me amam (v. 17)
“Eu amo aqueles que me amam, / e deixo que me encontrem aqueles que verdadeiramente me procuram” (17). Amar a sabedoria é a definição precisa de filosofia, que é o que grande parte do livro aspira.
A partir daí, a Sabedoria apresenta mais uma qualidade pessoal, que é o apego e a abertura que ela tem aos que amam seus conselhos, dizendo “amo os que me amam, e quem me procura me encontra”.
O apego à sabedoria como fonte de justiça seria a condição para um bom governante, que, em meio ao autoritarismo inerente a toda monarquia, pudesse encarnar o ideal que Deus esperava de cada um de seus servos. De uma perspectiva sociopolítica, a intenção divina de estabelecer uma nação alternativa tinha que ser cumprida, isto é, uma que realmente se diferenciasse dos outros povos por causa de Javé, o Deus da liberdade e da justiça completas.
O bom governo necessário para que um povo sobreviva e prospere (cf. Pr 11,14) pressupõe também que o príncipe seja leal, magnânimo, misericordioso […] (20,28); para que ele deteste o mal […] (16.12; 25.5; 31.3-5); que ele se apega ao bem […] (16.13; 22.11) Algumas consequências são: a eliminação do mal […] (20.8); o máximo respeito […] (20.2; 19.20; 25.6s) […] Se o rei não se conformar à imagem do governante ideal, a arrogância selvagem prevalecerá no reino, especialmente sobre os fracos (J. Vílchez L.).
Conclusão
Trazendo tudo isso para a dimensão pessoal e fazendo uma autoavaliação rápida, perguntamos: estamos tendo atitudes que refletem o temor ao Senhor? Estamos tendo momentos de descompressão, digitando de forma perversa em nossas redes sociais? Estamos orgulhosos a ponto de não conseguirmos orar pelos nossos líderes e políticos? Se assim como eu, em sua autoavaliação, ficou evidente a falta de sabedoria, eu convido você a pedir a Deus, pois a todos Ele dá livremente e de boa vontade (Tiago 1.5) e voltar os nossos olhos para Cristo, nosso Salvador.
Oremos:
Senhor clamo pela sabedoria pura que vem do alto, pela sua misericórdia e que nós sejamos agraciados por ela em nossa vida pessoal, profissional e estudantil. Que nosso futuro seja guiado pela sabedoria divina. Oramos também por nossos líderes políticos e judiciais - no âmbito municipal, estadual e federal - para que busquem ao Senhor e sua sabedoria para que aja justiça e bem estar em nosso país. Em nome de Jesus. Amém.”
Leituras recomendadas:
Mercedes García Bachmann, “Livro de Provérbios”, in RIBLA, no. 52, 2005/3, págs. 53-68.
Luis Alonso Schökel e José Vílchez Líndez, Sabedoria I. Provérbios. Madri, Cristandade, 1984.
Gerhard von Rad, Sabedoria em Israel. Os Sábios. A sabedoria . Madri, Fax, 1973 .
José Vílchez Líndez, “Autoridade Civil em Provérbios”, em Sábios e Sabedoria em Israel. Estella, Verbo Divino, 1995.
Pr. Thomas Tronco E-mail: thomastronco@igrejaredencao.org.br
Tiago Ferraz. https://www.ibmarape.org.br/profile/c35d7ebf-e33f-4a81-9601-7c27539ad723/profile
VERDADE X MENTIRA
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 12.17-19 [NVI]:
A testemunha fiel dá testemunho honesto, mas a testemunha falsa conta mentiras.
Há palavras que ferem como espada, mas a língua dos sábios traz a cura.
Os lábios que dizem a verdade permanecem para sempre, mas a língua mentirosa dura apenas um instante”
O tema do uso da língua é realmente frequente nos provérbios — provavelmente por ser frequente causa de problemas entre as pessoas. Nessa sequência de três versículos, o assunto é “a verdade versus a mentira”.
Comecemos falando um pouco sobre a verdade: ela está relacionada ao caráter imutável e invariável de Deus. E o tempo é o maior aliado da verdade. Quem diz a verdade permanece para sempre, já a língua mentirosa dura apenas um instante, isso porque devemos ter em mente que a mentira nunca fica encoberta. A verdade é aquilo que existe, é real, é correto, o contrário da mentira. A verdade é algo absoluto. É a realidade e não muda, nem depende da opinião das pessoas. A verdade continua sendo verdade, mesmo quando ninguém acredita que é a verdade.
Falemos, agora, sobre a mentira. Agostinho de Hipona, no séc. IV, resolveu complicar o assunto, ao descrever oito tipos diferentes de mentira. Vamos citar apenas seis, que englobam, a nosso ver, o total do pensamento do teólogo. A mentira pode ser:
A que prejudica alguém, mas é útil a outro. Atualizando esse ponto, podemos incluir aqui as chamadas fake news nas redes sociais (replicadas sem checagem), as notícias falsas na imprensa, as publicidades enganosas, difamações etc., com a finalidade de beneficiar certas pessoas, políticos, organizações, empresas, amealhando algum lucro com isso.
A que prejudica sem beneficiar ninguém. É geralmente fruto de ódio, inveja, ciúme e por aí vai. No fim só destrói, não traz lucro, nem alegria ou prazer.
A que ocorre pelo prazer de mentir. A pessoa ou exagera os fatos ou os inventa porque isso lhe dá satisfação e de certo modo alimenta o seu ego.
A que é contada para divertir alguém. Agostinho inclui aqui as anedotas, piadas, enfim o humor. Podemos incluir também a literatura, as artes de um modo geral. Em tese, nem deveria constar como mentira propriamente, pois Jesus usou de parábolas para ensinar verdades. E o humor não é proibido, ao contrário, é até incentivado nas Escrituras.
A que leva ao erro religioso. Esta é muito perigosa. Há aqueles e aquelas que argumentam que o uso de certas inverdades pode servir para atrair as pessoas para o evangelho, para a vida cristã, mas isso não tem fundamento. Deus não precisa desse tipo de ajuda. O que convence as pessoas é a ação do Espírito Santo. Portanto falsas profecias, visões da mente, sonhos contrários ao evangelho, revelações do coração, ao fim só afastam as pessoas, podendo até destruir a sua fé no Senhor.
A que salva a vida de uma pessoa. Agostinho considera esta uma boa mentira. É evidente que ela deve ocorrer em circunstâncias críticas, sendo proferida para evitar que uma pessoa corra risco de vida, ou que seja ferida, sequestrada, sofra danos irreparáveis e por aí adiante. Mesmo assim, o teólogo recomenda que, se possível, a verdade seja dita.
Voltemos ao texto de Provérbios e aos três contrastes entre a verdade e a mentira. O primeiro contraste é exposto em relação ao testemunho. A comparação é simples. O “fiel” fala o que é verdade, mas o homem “falso” fala o que é “mentira”. A colocação é simples e carece de relação com alguma situação específica. Essa ausência aponta o fato de o sábio querer simplesmente mostrar como são confiáveis as palavras do justo ao passo que as palavras do falso não têm valor a fim de se estabelecer a verdade.
O segundo contraste já aborda a questão dos resultados do uso da língua. Os tolos fazem um mau uso das palavras a ponto de torná-las armas, como uma “espada”, que ferem as pessoas a quem se dirige e de quem se faz comentários maldosos. Nesse sentido, ninguém deve menosprezar o poder destruidor da língua de um homem ou de uma mulher tola e maldosa. Os ferimentos são tão reais e severos quanto aqueles feitos por lâminas afiadas. Porém, se as palavras dos ímpios abrem feridas, as palavras dos “sábios” as fecham, trazendo “cura”. Tais homens e mulheres conseguem se colocar no lugar das pessoas feridas, além de saber avaliar o que é justo e injusto. Por isso, escolha bem suas palavras a fim de edificar e, com isso, glorificar a Deus.
O terceiro contraste tem a ver com a retribuição pelas palavras. O justo, cujas palavras são verdadeiras, “permanecem para sempre”. Isso significa que eles não sofrem consequências por suas palavras ferinas ou mentirosas. Ele é aprovado diante dos homens e de Deus. O mentiroso ou a mentirosa, apesar de obter algum lucro ou satisfação com suas palavras malditas e falsas, vê sua satisfação durar “apenas um instante”. Uma simples averiguação da verdade aponta a mentira e o falso testemunho, além de notar a maldade no coração de quem fere com palavras.
Segundo a psicologia, dizer a verdade, embora seja considerada uma virtude, também é considerado um hábito de vida saudável. É cientificamente comprovado: quando somos sinceros com nós mesmos e com as pessoas ao nosso redor, proporcionamos um bem-estar físico e mental. E onde a verdade prevalece, há alegria, não temos nada a temer, a paz é semeada e é agradável a Deus. Quando falamos a verdade, ficamos tranquilos, fazemos bem a nós e às pessoas que nos rodeiam, nosso testemunho é verdadeiro.
Depois de ouvir o ensino do texto de Provérbios, você quer mesmo dizer que palavras não são tão importantes e que qualquer um pode mesmo dizer tudo que quiser? Que tudo pode ser enquadrado como “liberdade de expressão”?
Nossa oração está no Salmo 139: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece as minhas inquietações. Vê se em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno.”
SÁBIO ANDA COM SÁBIO
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 13.20 [NVI]:
Aquele que anda com os sábios será cada vez mais sábio,
mas o companheiro dos tolos acabará mal.
O romancista, filósofo e teórico da literatura e da linguagem, Umberto Eco, deu uma de suas declarações mais emblemáticas: segundo o autor de O nome da rosa, “a internet deu voz a uma legião de imbecis”. O tempo tem demonstrado que a afirmação do escritor tem certa razão. Com o avanço da internet, podemos observar vários “influencers” nas redes sociais. Na realidade, isso já se tornou até mesmo uma profissão. Os "influencers" são pessoas com muitos seguidores em suas redes, o que faz com que suas falas e opiniões tenham muita importância. Muitas pessoas até mudam seu estilo de vida para se "adequar" a tal modo de viver de tal "influencer". E, em muitas situações, essa influência é nociva, à medida que espalha desinformação, futilidade, ignorância e, conforme o texto de Provérbios nos diz, torna-se uma companhia “tola”, incentivando comportamento típico de pessoas néscias.
A grande questão sobre essa situação está na forma como nós, que queremos ser discípulos e discípulas de Jesus, devemos nos comportar em meio a tudo isso. Muitas das coisas que vemos nas redes podem acabar nos influenciando. Como comer, beber, comprar, comportar, viver enfim.
Podemos imaginar que essas são coisas superficiais, e que não há perigo algum em seguir o que um influenciador ou influenciadora fala, mas a realidade é bem diferente. Nós, cristãos e cristãs, precisamos entender primeiro que a nossa maior influência deve ser a vida de Jesus, que está narrada nos evangelhos, no Novo Testamento da Bíblia. Além disso devemos lembrar que Deus coloca em nossa jornada de fé pessoas sábias, que caminham conosco, a fim de nos ajudar.
Nas comunidades de fé, há gente de todo tipo e com os mais diversos problemas. Existem aquelas pessoas que buscam sempre o bem e estão sempre em boas companhias. Dificilmente criam problema. No entanto, há aqueles que se parecem com ímãs e só atraem companhias ruins. É difícil entender por que essas pessoas buscam a presença de pessoas sem caráter e distantes dos princípios do evangelho de Cristo, mas há gente que é especialista nessa prática. A impressão é que elas só ficam felizes entre os profanos. Infelizmente, sempre há consequências, muitas vezes dolorosas, apesar de quase todos afirmarem que isso não as afeta, afirmando: “eu me garanto!”. Bobagem! Não há nenhuma garantia para isso!
O sábio de Provérbios assevera que as companhias que uma pessoa tem infalivelmente a influenciam e acabam dando um destino diferente ao seu futuro. Ele começa falando dos sábios. Eles buscam a presença de pessoas que têm as características que lhes agradam e que eles valorizam, de modo que essa pessoa sensata “anda com os sábios”. A influência deles é tão positiva que o sábio fica “cada vez mais sábio”. Por fim, essa companhia benéfica age tanto tolhendo e impedindo o que é mau, como cultivando o que é bom, justo e agradável a Deus. Normalmente, esses relacionamentos são bons para ambas as partes e todos eles se tornam mais sábios e tementes ao Senhor.
Mas que dizer de quem atrai as más companhias? O texto diz que “acabará mal”. O “companheiro dos tolos”, por mais que tenha confiança em si mesmo, demonstra não ser confiável desde a desobediência de se afastar de pessoas ruins e rebeldes diante de Deus. A partir daí, cada prática corrompida é cultivada aos poucos e desenvolvida sem que se perceba, até que o tolo se torna tão mau quanto seus pares — ou pior. E isso vale para influências de origens diversas, inclusive das redes sociais e seus “influenciers”. E o mais triste é ver isso acontecer com gente que tinha tudo para estar bem em sua vida de fé e ser abençoado por Deus.
Devemos observar sempre as boas lideranças ao nosso redor, irmãos e irmãs de fé, que nos encorajam na vida espiritual, pessoas com a sabedoria que vem de Deus e principalmente dos ensinos de Jesus Cristo. Essas devem ser nossas influências, modelos a serem seguidos.
Vamos ao outro lado da moeda: também somos e devemos ser influenciadores. Devemos sempre dar um bom testemunho em tudo o que fazemos, para que as pessoas ao nosso redor vejam quem é o nosso Deus; como Ele é bom, amoroso, justo. Pessoas precisam de ajuda na caminhada com Deus, e nós precisamos de sabedoria divina para apoiá-las.
Oração: "Nos ajude, Deus, a reconhecer as pessoas que trabalham para o teu reino, que se espelham em ti, pois elas sim devem ser nossas influências. E que possamos também influenciar outras pessoas a seguir o caminho da sabedoria que vem de Ti. Em nome de Jesus. Amém".
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DIREITO OU TORTO?
Provérbios 14.2 [NAA]:
Quem anda na retidão teme o Senhor, mas o que anda em caminhos tortuosos, esse o despreza.
O Sábio, nesse texto, expressa uma relação de causa e efeito, no que diz respeito à forma como as pessoas estabelecem, em seu coração, os fundamentos de seu comportamento vivencial. Aqui, mais uma vez, aparece a contraposição entre o sábio e o tolo. O sábio, nomeado no texto como “quem anda na retidão”, tem como causa da sua correção o fato de que ele “teme o Senhor”. Da forma como está, fica a dúvida: se andar direito é efeito de temer a Deus ou se é sua causa. Contudo, se olharmos para o ensino geral do livro, que enfatiza que “o temor do Senhor é o princípio do conhecimento” (Pv 1.7a), percebemos que o Sábio de Provérbios está ensinando que se deve buscar e temer a Deus para se tornar um sábio e ser salvo da iniquidade. Desse modo, quem se aproxima do Senhor e o procura para ter orientação para as questões existenciais tem sua vida e sua mentalidade transformada a tal ponto que seus impulsos e atitudes são marcados por uma nova maneira de agir que o faz se voltar para o bem-estar tanto pessoal quanto social e andar conforme a vontade de Deus.
Por outro lado, há também quem “o despreza” e, nesse desprezo, quer agir de tal modo que Deus não lhe dite rumos, nem lhe imponha valores. O efeito é que essa pessoa tola “segue caminhos tortuosos”, que parecem bons aos seus olhos, mas contêm armadilhas, causam problemas e tristezas e, ainda que permitam caminhar bem durante algum tempo, cede lugar a desvios problemáticos. A própria motivação corrompida de alguém que despreza o ensino divino faz com que seus melhores atos sejam manchados pelo egoísmo, orgulho, ganância, cobiça e mentira. Por isso, precisamos tomar cuidado! Ninguém chega ao destino correto seguindo as indicações de um mapa errado.
Neste versículo, o Sábio observa as duas possíveis condições na vida de todo ser humano: os que temem o Senhor, e os que o desprezam. Sendo claramente identificadas através da nossa caminhada.
Como está a sua caminhada?
Oração:
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” (Salmos 139.23-24)
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 15.1,4:
A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira (Pv 15.1 NVI).
O falar amável é árvore de vida, mas o falar enganoso esmaga o espírito (Pv 15.4 NVI).
Quando eu era professor universitário, a universidade em que lecionava me indicou ao Tribunal do Júri, e nessa condição, o que mais via eram pessoas, principalmente jovens, se tornarem réus por se envolverem em discussões e, em seguida, tentarem matar o seu desafeto. Tudo por causa do mau uso das palavras. Daí a pergunta: as palavras têm poder?
As palavras são ferramentas extremamente importantes da nossa comunicação. Elas têm um grande poder, sendo capazes de motivar, levantar, emocionar, aproximar, decepcionar, magoar, afastar e derrubar. As palavras são capazes de expressar vontades e emoções. Elas são o reflexo do que se pensa e se deseja, impactando diretamente a vida das pessoas. Dependendo do que e de como falamos, podemos tanto agradar quanto desagradar quem nos ouve. Quando usadas de forma correta, geram reflexões e opiniões, que podem ser de grande valia para quem as ouve. Ao contrário, quando não se mede o impacto que a palavra pode ter, elas podem ser responsáveis por grandes decepções, frustrações e agressões.
Pv 15.1
Em uma situação de atrito e, principalmente, de ânimos exaltados, a pior coisa que pode acontecer é uma resposta mal formulada, seja com rispidez ou com ironia. Por mais que a outra parte esteja zangada, isso ainda pode piorar. Entretanto, o sábio, por meio da resposta branda, “desvia a fúria” de quem está exaltado. É claro que, em alguns casos, o homem nervoso fica zangado justamente com a calma de seu oponente, já que lhe revela a fúria indevida. Porém, isso é mais raro do que alguém ficar furioso com palavras agressivas.
O tolo quase nunca pensa em que lugar quer chegar. Por isso, ele só faz o que tem vontade e, em meio a uma situação enervante, age conforme o furor que sente e diz o que deseja no sentido de atender às suas emoções do momento. Assim, consegue piorar até as circunstâncias mais difíceis, pois “desperta a ira” alheia. Interessante notar a escolha de palavras para “fúria” e “ira”. Apesar de serem paralelas nesse texto, devendo, portanto, ser compreendidas como sinônimos, a “ira” da segunda parte do versículo normalmente aponta para um sentimento mais abrupto com suas reações exacerbadas. A primeira palavra, traduzida como fúria, aponta para um sentimento mais interno e não tão momentâneo como a ira. Desse modo, percebe-se que a “resposta calma” consegue, muitas vezes, apagar o fogo até mesmo daquelas mágoas mais duradouras. Portanto, antes de responder a alguém que está nervoso, não pense apenas no que você quer falar, mas no que você quer colher ao final da conversa.
Pv 15.4
Esse é um versículo cuja tradução, nas diversas versões, nem sempre tem seu sentido e paralelismo preservados, principalmente na primeira parte. A palavra hebraica traduzida geralmente como “amável”, “sereno” ou “gentil” também tem o sentido de “cura” (cp. Jr 8.15; 33.6). Dentro do paralelismo proposto pelo Sábio de Provérbios, esse parece ser o melhor sentido. Nesse caso, o que o escritor tem em mente é algo comparado à saúde ou doença de uma pessoa condicionada às palavras que ouve do sábio ou do tolo.
Assim, “o falar amável”, ou melhor, “o falar curativo” do sábio é “árvore da vida” para aquele que está sofrendo e abatido em meio aos revezes. É certo que a vida acaba por fortalecer as pessoas em meio às dificuldades, tornando-as cada vez mais firmes e resistentes. Contudo, nem sempre é possível suportar as pressões e a tristeza por muito tempo. Nesse caso, o abatimento íntimo de alguém pode ser comparado a uma doença que o corrói e enfraquece, fazendo-o achar ser impossível se levantar. Nesse momento, mais que nunca, o sábio é chamado a curar as feridas do sofrimento por meio de palavras sábias que consolem, encorajem e renovem a fé e o vigor. É algo melhor e mais eficaz que a medicação correta para certa doença.
O tolo, obviamente, consegue fazer o contrário. Ele agrava até as piores situações falando o que não deve e na hora indevida. Sem ser alguém confiável, renegando o temor de Deus que lhe limitaria as palavras, ele tem um “falar enganoso” que visa a machucar até quem já está ferido. E, para tanto, ele inventa mentiras e provoca situações de desconfiança, desavença e desarmonia, ações que revelam seu caráter “enganoso”. Muitas vezes, seu objetivo é, infelizmente, alcançado, pois ele “esmaga o espírito” do abatido em vez de socorrê-lo e curá-lo, como aconteceria se um médico prescrevesse a medicação errada para um doente internado em estado grave. Pense: se você fosse um médico, prescreveria os medicamentos que curassem ou que matassem os pacientes? Em suas palavras, você quer que curem o abatido ou que terminem de destruí-lo? As palavras têm esse poder: podem curar ou adoecer os relacionamentos. É você quem faz a escolha.
Oração: “Deus, me ensine a viver em paz com todos, e que as palavras de minha boca sejam serenas e curativas, que transmitam vida e verdade. Em nome de Jesus. Amém!”
DE QUEM É O PLANO?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 16.1-3 [NVT]
¹ É da natureza humana fazer planos,
mas a resposta certa vem do Senhor.
² Ainda que as pessoas se considerem puras,
o Senhor examina as intenções de cada um.
³ Confie ao Senhor tudo que você faz,
e seus planos serão bem-sucedidos.
Neste trecho do livro, o Sábio de Provérbios fala de diversas características de uma pessoa que é plenamente dirigida por Deus e aquela que não é. O texto declara que o ser humano pode ter planos, mas deve ter em mente que a resposta certa vem de Deus.
1 - Deus tem a última palavra — É da natureza humana fazer planos, mas a resposta certa vem do Senhor ( Pv 16.1).
Antes de construirmos uma casa, fazemos o projeto. Antes de iniciarmos uma viagem, traçamos o roteiro. Antes de começarmos um empreendimento, estabelecemos planos e metas. Nem sempre o que planejamos acontece. Somos limitados e não conseguimos discernir todos os fatos que se escondem nas dobras do futuro. Alguns pensam que nossa vida segue um curso inflexível. Acreditam num determinismo cego e radical. Outros pensam que a história está dando voltas sem jamais avançar para uma consumação. Nós, porém, cremos que Deus está no controle do universo. Ele é o Senhor da história e tem nas mãos as rédeas dos acontecimentos. Nosso coração faz muitos planos, porém não é a nossa vontade que prevalece, mas o propósito de Deus. Não é a nossa palavra que permanece de pé, mas a resposta certa que vem dos lábios do Senhor. Deus conhece o futuro em seu eterno agora. Deus vê o que se esconde nos corredores escuros do porvir. Para ele, luz e trevas são a mesma coisa. Nada escapa ao seu conhecimento. Ele domina sobre tudo e sobre todos. O controle remoto do universo está em suas mãos. É Deus quem tem a última palavra.
2 - Deus julga nossas intenções — Ainda que as pessoas se considerem puras, o Senhor examina as intenções de cada um (Pv 16.2).
O ser humano deve compreender que toda sua motivação e ações serão julgadas segundo o propósito dele, e que se houver uma disposição em seguir ao Senhor, esta obterá a sua misericórdia mediante o temor e adoração a Ele.
Nosso conhecimento é limitado. Julgamos segundo a aparência. A camada de verniz que cobre a covardia e esconde a coragem muitas vezes nos impressiona a ponto de pensarmos que somente os belos e carismáticos são os escolhidos de Deus. Deus não vê as coisas como nós as vemos. Nós vemos o exterior; Deus vê o coração. Nós contemplamos a ação; Deus julga a motivação. Podemos pensar que tudo o que fazemos é certo, mas o Senhor julga nossas intenções.
Somos a geração que aplaude a performance, que premia o desempenho, que acende as luzes do palco para o glamour da aparência. Somos uma geração que idolatra o corpo e cultua a beleza física. A Bíblia, porém, diz que enganosa é a graça e vã é a formosura, mas a pessoa que teme ao Senhor será louvada. O que conta para Deus não é o que aparentamos ser, mas o que somos. Não raro as pessoas amam não quem somos, mas quem aparentamos ser. Amam não nossa verdadeira identidade, mas nossa máscara. Não somos aquilo que somos em público, mas quem somos em secreto. O que tem valor aos olhos de Deus não é o que julgamos puro, mas o que Deus considera puro.
3 - Planos bem-sucedidos - Confie ao Senhor tudo que você faz, e seus planos serão bem-sucedidos (Pv 16.3).
Nós somos seres limitados. Não enxergamos o que se esconde nos meandros do porvir. Não sabemos o que é melhor para nós. Não sabemos nem mesmo orar como convém. Por essa razão, precisamos submeter a Deus nossos sonhos, nossos planos e nossos desígnios. Não administramos os acontecimentos; nem mesmo temos a garantia de que estaremos vivos daqui a cinco minutos. Dependemos totalmente de Deus. Não podemos ficar de pé escorados no bordão da autoconfiança. Precisamos rogar a direção divina para tudo o que fazemos, a fim de ser bem-sucedidos. Precisamos confiar ao Senhor as nossas obras, para que nossos desejos sejam estabelecidos. Não é a nossa vontade que deve prevalecer no céu, mas a vontade de Deus que deve ser feita na terra. Não é sensato fazermos nossos planos para depois pedir a Deus que os aprove. Precisamos orar para que os planos de Deus sejam os nossos planos. Os caminhos de Deus são melhores do que os nossos, e os desígnios de Deus são mais elevados do que os nossos. Os planos bem-sucedidos são aqueles que descem do céu para a terra, e não aqueles que sobem da terra para o céu.
Desse modo, que sua vida seja plenamente dirigida por Deus, observando que cada detalhe dependa única exclusivamente da direção do Senhor em sua palavra, e que depender dele seja sempre a melhor escolha.
Oração: “Senhor, ajuda-nos a dependermos unicamente de ti, que o nosso eu seja suplantado pela tua vontade, direção, planos e propósitos, e que toda resposta que precisamos venha unicamente de ti, e assim nosso coração ficará em paz, pois seremos repletos de tua sabedoria e direção, amém”.
VERDADEIRA AMIZADE
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Pv 17.17 [NVI]:
O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade.
Eu li que a revista United Church Observer certa vez publicou que, embora os povos originários da América do Norte não tivessem um alfabeto escrito antes de terem contato com os conquistadores europeus, a sua linguagem não era nada primitiva. O vocabulário de muitas nações indígenas era, ao contrário, até bem mais eloquente. Em relação à palavra “amigo”, o termo que eles empregam é: “aquele-que-carrega-minhas-dores-em-suas-costas”. Com certeza isso é bem mais eloquente do que a palavra que empregamos para definir a amizade.
É sobre amizade que o Sábio de Provérbios fala nesse verso, dizendo que “o amigo ama em todos os momentos”. A expressão certamente tem várias interpretações e implicações válidas, algumas óbvias e outras que surgem somente no contexto, em paralelo com a segunda parte.
Primeiramente significa que existe um tipo de relacionamento mais profundo e que acompanha as pessoas mais de perto que as relações gerais. Trata-se de um compartilhamento de gostos, ideias, disposições e objetivos, além de uma parceria voluntária que une pessoas. Por isso, a amizade acompanha os amigos “em todos os momentos”. Isso é um fato e, portanto, deve fazer com que os os cristãos e cristãs trabalhem para desenvolver entre si esse tipo de sentimento e relacionamento.
Porém, o segundo significado dessa amizade se dá quando o verso afirma que o amigo ou a amiga é aquele ou aquela que se mostra como “um irmão [e podemos dizer também uma irmã] na adversidade”. Isso demonstra que, mesmo que os amigos e amigas estejam sempre juntos, há situações que afastam as pessoas cuja integração é limitada. E aqui vale citar o comentário de Matthew Henry: “Amigos devem ser devotados uns aos outros. Não é verdadeira a amizade que não é devotada.”
São nesses momentos que os verdadeiros amigos e amigas são conhecidos, pois não abandonam quem precisa, nem agem com egoísmo. Na verdade, algumas amizades são tão provadas e reforçadas em circunstâncias como essas que acabam criando o mesmo tipo de união que há entre irmãos de sangue. Portanto, cuide bem da escolha das suas amizades, pois elas são invasivas — algo positivo em boas amizades, mas muito ruim quando se trata de pessoas erradas. Além disso, preste atenção em quem está ao seu lado durante sua dor, pois são essas pessoa que demonstram a verdadeira amizade. Valorize-as!
A questão é a seguinte: olhando por outro ângulo, qual auxílio você tem prestado às pessoas que, por acaso, estão enfrentando adversidades? Você tem compartilhado uma palavra de amor, de ânimo, e tem orado com e por elas? O que você tem feito a fim de se mostrar disponível?
Oração:
Pai nosso que estás no céu, dá-nos sabedoria para que possamos valorizar os amigos e amigas que tens colocado em nossa vida. Ensina-nos também a sermos prestativos como irmãos e irmãs das pessoas que precisam de nós. Amém!
A sabedoria não é solitária
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 18.1 [NAA]:
O solitário busca o seu próprio interesse
e se opõe à verdadeira sabedoria.
Quem é o solitário? De quem o autor está falando? Que tipo de solidão é essa?
Este versículo trata daquele que não nota as necessidades dos outros, que não se importa com o mundo que o cerca e nem interage com ele. Uma pessoa misantropa, ou seja, que prefere a solidão, não tem vida social, não gosta da convivência com outras pessoas. É o tipo de pessoa que se isola de tudo e de todos e que pensa que não precisa de ninguém, nem de família, nem de amigos, nem esposa, esposo ou filhos. Ele/ela se basta, é autossuficiente.
É evidente que esse texto não está fazendo defesa do casamento necessariamente, pois existem pessoas que se casam apenas para satisfazerem seus desejos egoístas e não realmente para se relacionarem de modo saudável e significativo. Por outro lado, há solteiros/as por opção que são extremamente bem relacionados e vivem de forma feliz.
Então que tipo de solidão prejudicial é essa?
O ser humano tende a desenvolver um senso de autossuficiência e egoísmo. Estamos vivendo num tempo em que as pessoas estão cada vez mais conectadas e, ao mesmo tempo, cada vez mais isoladas. Elas estão desaprendendo a conversar naturalmente, estão sempre focando a rapidez. Elas só querem gastar seu precioso tempo naquilo que realmente as interessa de imediato. O clique no Facebook, a curtida no Instagram, a troca de mensagens curtas e objetivas no WhatsApp, sem falar nas outras inúmeras redes sociais. A pessoa ilude-se que pode se satisfazer com estas coisas, assim, só busca o contato com outra pessoa quando precisa de algo que ela possa obter dela. Ou seja, o convívio natural e humano, desinteressado está se deteriorando de maneira assustadora. É uma solidão imensa, um mar de solidão, mesmo vivendo em plena era da comunicação digital.
Há muitos que dizem que viver em solidão é uma bênção, que ficar só em casa, de boa, incomunicável pode ser bom, que a gente pode ser feliz sozinho. Percebam, isso é o que a sociedade diz, não o que o Sábio nos diz, nem o que as Escrituras nos mostram.
Voltamos ao mesmo ponto. Nem sempre os/as solteiros/as são solitários. João Batista era solteiro e tinha seus discípulos, não estava só (Marcos 1.4-11). Jesus, da mesma forma, tinha seus seguidores. Elias, um exemplo de profeta solitário, sentiu-se aflito, angustiado e sozinho, Deus separou Eliseu para que o pudesse servir, ser ensinado e servir de companhia (1 Reis 19.19). A amizade entre os profetas Elias e Eliseu ajudou Elias a enfrentar as dificuldades da sua vida. Eliseu também teve seu discípulo Geazi. E assim todos os homens de Deus ou viveram em sociedade ou tiveram companhia na sua jornada.
Nosso Deus deseja que o ser humano viva em comunidade. Para isso nos dotou com grande capacidade de comunicação, como a nenhum outro animal. Nós precisamos de contato humano, e quem não reconhece isso rebela-se contra a verdadeira sabedoria. Mais do que isso, a pessoa que vive isolada, vive para si, para seus desejos egoístas, está longe de agradar a Deus, está longe da verdadeira felicidade.
É na convivência que aprendemos sobre as necessidades dos nossos semelhantes e como podemos servir melhor uns aos outros.
A solidão exacerba o individualismo, que é uma porta aberta para todos os tipos de males. Esse individualismo é irmão gêmeo do egoísmo. Quem é sábio fugirá do egoísmo. Leia o que o apóstolo Tiago nos ensina: Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. (Tiago 3.16)
O nosso Deus não é solitário: desde a eternidade, Ele é Pai, Filho e Espírito Santo, ou seja, a Trindade é a maior prova do valor intrínseco da comunhão.
O Sábio de Provérbios acha que o isolamento é prova de tolice. (De novo estamos diante da antítese sábio versus tolo.) No texto citado, ele fala que o solitário, ou seja, quem se isola, é a pessoa que foge da companhia dos amigos e amigas e de irmãos e irmãs. A razão mais óbvia para isso — que é a última coisa a ser dita no versículo — é que ele “se opõe à verdadeira sabedoria” ou, como diz a NVI, “se rebela contra a sensatez”, o que é uma maneira poética de dizer que se trata de pura tolice. Contudo, a parte mais reveladora afirma que tal pessoa “busca seus próprios interesses”, ou seja, interresses egoístas. Isso realmente aponta para problemas bem mais profundos que não têm relação com timidez ou simples gosto por ficar sozinho. Há uma grande chance de que a pessoa que se isola faça isso para se afastar de olhos vigilantes a fim de fazer o que é mau e errado.
As lições que tiramos disso nos coloca dos dois lados do problema. De um lado, podemos ser aqueles que querem se isolar da companhia das pessoas com quem se devia andar lado a lado. Nesse caso, abriríamos uma porta larga para a solidão. Por outro lado, podemos perceber alguém da nossa intimidade ou familiar mudar gradualmente de atitude, tornando-se arredio, inacessível e de pouca conversa, afastando-se dos que o amam. Nesse caso, temos boas razões para desconfiar de que algo está errado. Não podemos desistir de tal pessoa, mas buscá-la a fim de voltar ao bom senso e à sabedoria divina. De qualquer modo, independente do lado que se esteja, o isolamento é uma ferramenta para o mal e não deve ser visto com indulgência.
É por isso que esse isolamento é extremamente prejudicial à vida cristã. Se queremos imitar a Cristo devemos fazer como ele, que esteve sempre rodeado de amigos além de sua própria família. É claro que Jesus teve seus momentos de solidão, onde se retirava sozinho para passar algum momento em oração. Isso também é importante. Um tempo a sós com Deus. Mas esses momentos são ilhas e não continentes da vida cristã. Precisamos deles, e precisamos também da comunhão com nossos entes queridos, irmãos e irmãs de fé, assim como de convivência social e humana.
A sabedoria não é solitária.
Oração:
Deus Pai, Filho e Espírito Santo, que vives na eterna comunhão, ajuda-nos a viver em comunhão uns com os outros e a partilhar o nosso viver com os nossos semelhantes de modo altruísta e participativo. Concede-nos uma vida de sabedoria e não de egoísmo. Por Cristo Jesus, amém.
POBRE OU TOLO?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 19:1[NAA]:
Melhor é o pobre que anda
na sua integridade
do que o perverso de lábios,
que é um tolo.
O autor do livro de Provérbios formula aqui um pensamento intrigante, já que a comparação que faz não é óbvia, nem faz muito sentido à primeira vista. Isso porque ele antepõe o “pobre” ao “tolo”. Seria de se esperar uma comparação entre o sábio e o tolo, ou entre o pobre e o rico. Mas essa discrepância é apenas aparente. Na verdade, o tolo não é anteposto ao pobre, mas sim ao que “que anda na sua integridade”, o que, no livro de Provérbios, é o mesmo que dizer “sábio”. Por isso, apesar de o texto dizer que “Melhor é o pobre que anda na sua integridade do que o perverso de lábios, que é um tolo”, ele quer dizer que é melhor ser sábio, ainda que isso custe ao prudente a prosperidade, do que ser um tolo que enriquece perversamente, já que obtém uma vida próspera enganando, mentindo, cobiçando e tomando o que não lhe pertence.
Cabe aqui esclarecer o sentido da palavra tolo nesse texto. Ela vem do hebraico kesil que literalmente significa “gordo”, “indolente” e, por isso mesmo, vagaroso para entender e crer. Em outras partes do livro de Provérbios, a palavra é traduzida por “néscio” (8.5), e “insensato” (14.16). Estes sentidos se associam para dar a ideia de impiedade e de incredulidade, sendo a falta de temor de Deus.
Desse texto podemos tirar, pelo menos, duas lições. A primeira lição é que a riqueza obtida por meios reprováveis traz, mais cedo ou mais tarde, consequências muito tristes para o tolo e perverso. Caso contrário, não seria dito que é melhor ser pobre, principalmente sabendo como é difícil a pobreza, em especial nos dias antigos. A Bíblia é frequente em dizer que o Senhor sustenta os justos e fiéis, de modo que a pobreza não é, de modo algum, pior que a perversidade.
A outra lição é que a sabedoria e a justiça têm um custo a ser pago por aqueles e aquelas que querem ser discípulos e discípulas de Jesus. Esse custo se deve ao fato de o crente não poder abrir para si exceções no quesito honestidade, mesmo que isso lhe traga prejuízos — e, frequentemente, trás. Principalmente numa sociedade em que a ausência de integridade se estabeleceu em todas as áreas, isto é, no comércio, na indústria e até mesmo na igreja. As famílias estão sendo assoladas por essa crise de integridade. Vivemos numa espécie de torpor vivencial e espiritual e numa vergonhosa inversão de valores. As pessoas valorizam mais o ter do que o ser. Coisas valem mais do que pessoas. Nessa sociedade hedonista, as pessoas aplaudem a indecência e escarnecem da virtude, enaltecem o vício e fazem chacota dos valores éticos essenciais para a vida comunitária. Precisamos levantar a voz para dizer que é melhor ser pobre e honesto do que mentiroso e tolo.
Mas o lucro do que é íntegro é ter uma consciência tranquila e não o dinheiro desonesto no bolso. E melhor comer um prato de hortaliça com paz na alma do que viver se refestelando em banquetes requintados, mas com o coração perturbado pela culpa. É melhor ser pobre e honesto do que ser rico e desonesto. A integridade vale mais do que o dinheiro. O caráter é mais importante do que o desempenho. O que somos vale mais do que o que temos.
Oração:
Deus, nosso Pai, ajuda-nos a perseverar na honestidade e na integridade em nossa vida, para assim adquirir sabedoria para viver uma vida de testemunho e fé. Por Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!
ALGUÉM DE CONFIANÇA, QUEM ACHARÁ?
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Muitos proclamam a sua própria bondade, mas alguém que é digno de confiança, quem o achará? (Provérbios 20.6 – NAA)
Muitos se dizem amigos leais, mas quem pode encontrar alguém realmente confiável? (Provérbios 20.6 – NVT)
O texto pode ser lido e interpretado, dependendo da versão adotada, em duas direções: na relação com Deus, enfatizando a dimensão da autoproclamação de bondade como algo sem sentido diante do Criador; em outro aspecto, a abordagem pode ser dirigida à fidelidade entre pessoas, o que parece ser a ênfase do autor de Provérbios na passagem citada.
Vejamos, primeiro, a questão da fidelidade a Deus. Nesse quesito, o autoelogio não soa bem. Não é aprovado aquele ou aquela que a si mesmo se louva. A Bíblia nos ensina a não fazermos propaganda das nossas próprias obras. Jesus exortou:
Quando, pois, você der esmola, não fique tocando trombeta nas sinagogas e nas ruas, como fazem os hipócritas, para serem elogiados pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa. Mas, ao dar esmola, que a sua mão esquerda ignore o que a mão direita está fazendo, para que a sua esmola fique em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa. (Mateus 6.2-4 – NAA)
O fariseu que entrou no templo para orar e fez da sua oração um discurso de autoexaltação, considerando-se superior ao publicano, foi rejeitado por Deus. Não sejam os nossos lábios que nos promovam. Muitos proclamam a própria benignidade, mas é raro encontrar uma pessoa realmente fiel. Todos dizem que são bons e fiéis, mas tente achar alguém que de fato o seja!
Já quanto aos relacionamentos humanos, podemos observar que uma coisa muito bonita na amizade é ver os laços que não se rompem, não apenas em momentos tranquilos e divertidos, mas em tempos difíceis. É em ocasiões de revezes que os amigos de verdade se revelam. Infelizmente, esse tipo de união tem sido cada vez mais raro de se ver. Mas a verdade é que sempre foi assim, pois o Sábio nos diz que “muitos se dizem amigos leais” (na versão NVT), ou que “proclamam sua própria bondade” (NAA). É fácil perceber isso quando se olha para pessoas ricas, populares e famosas, pois vivem cercadas de gente, têm a atenção de todos, são elogiadas e têm todo apoio de que precisam. Entretanto, basta que as mesmas pessoas passem por tempos difíceis e percam o status tão admirado para que as velhas amizades sumam. Por isso, depois de afirmar que há muita gente que se diz um amigo ou amiga leal, o escritor pergunta: “Mas alguém digno de confiança, quem poderá achar?”.
Os termos “leal” e “fiel”, “confiável”, nesse provérbio, são sinônimos que definem a atitude do/da amigo/a de verdade, que não depende de certas condições favoráveis para manter sua amizade e apoio, mas se dá em todo o tempo. Na verdade, essa é uma qualidade que não se sobressai quando tudo vai bem, mas sim em momentos de dificuldade, quando as falsas amizades se afastam, e ela surge de modo visível e marcante. A pergunta óbvia nesse sentido é que tipo de amigo ou amiga é você? Tem se apegado às pessoas pelas razões certas, com os vínculos mais nobres que podem ligar os seres humanos? A segunda pergunta é: você tem se cercado de amigos e amigas verdadeiros ou se aproximado de pessoas que abandonam você quando surgem os problemas? A amizade verdadeira tem um custo e só os amigos e amigas fiéis pagam o preço.
Oração
Pai nosso, queremos ser pessoas confiáveis, com relacionamentos baseados na fidelidade, no caminhar junto, em momentos agradáveis e alegres, mas também em situações difíceis e complicadas. Concede-nos graça para sermos aceitáveis diante de Ti, à medida que sejamos fiéis às nossas amizades. Por Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém.
QUEM PROCURA ACHA
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 21:21[Tradução da palavra de Deus - GW]:
Quem busca a justiça e a misericórdia
encontrará vida, justiça e honra.
O que você busca para a sua vida? Não é incomum ouvir alguém dizer que está buscando seguir uma carreira em algum campo de atuação. Quando ouvimos as pessoas dizerem isso, sabemos que elas estão investindo todas as suas forças, suas energias, e o seu tempo, no estudo e na preparação para essa carreira. Significa que elas têm um objetivo pela frente e esse objetivo é o que as orienta em grande parte do tempo e do investimento que fazem. Mas você já parou para se perguntar: “o que eu estou buscando para a minha vida relacional, familiar e comunitária?"
O Sábio, em Provérbios, nos mostra que há duas coisas que valem muito a pena buscar, quando se trata de assuntos relacionais. Essas duas coisas são: justiça e misericórdia. Convém lembrar que a vida é feita de escolhas. Enquanto uns procuram a estrada da justiça, outros descem pelos abismos da iniquidade; enquanto uns semeiam misericórdia ou bondade, outros plantam as sementes malditas do ódio e da violência. O que ninguém pode escolher são os resultados de suas escolhas.
Mas o que significa procurar essas duas coisas? Ao escolher essas duas coisas, encontramos as recompensas que nos são concedidas como consequência dessa escolha, o que faz com que a busca seja extremamente sábia.
Quando o escritor de Provérbios diz para procurar essas coisas, ele usa a palavra "Rodêf". Esta palavra significa perseguir ou seguir de perto com grande esforço e energia. A ideia é que não se deve apenas se buscar, mas perseguir essas coisas, não nos contentando com uma vida sem retidão e sem bondade ou misericórdia. Justiça e misericórdia são coisas que precisamos buscar em nossas vidas de maneira totalmente comprometida. Essa procura não é algo opcional ou casual que fazemos durante algum momento da nossa vida, mas precisa ser intencional como um objetivo de vida.
Buscar a justiça (que em hebraico é "tsedek"). Esta palavra significa retidão. Mas quando aplicada à maneira como vivemos nossas vidas, ela fala de retidão ética, de um desejo de que nossas vidas estejam à altura de um padrão correto e bom, que é o recomendado pelo Sábio no livro de Provérbios. Fala de viver uma vida de justiça, e como nós nos relacionamos uns com os outros, e especialmente como nós nos relacionamos com os pobres e os desafortunados. Essa palavra se refere a um padrão ético que não é estabelecido de acordo com o mundo e as culturas. O padrão que precisamos viver é somente encontrado na sabedoria de Deus. Como cristãos e cristãs, no entanto, a justiça que buscamos não é por lei. A mensagem do evangelho que fala desta justiça diz que nós a obtemos pela fé e que a exercitamos na vida por intermédio do amor, ou seja, da misericórdia ou da bondade tendo como alvo quem precisa da nossa ajuda.
Também devemos buscar a misericórdia ou a bondade (em hebraico é "chesed"). Essa palavra significa mais do que apenas bondade. É a palavra usada para descrever o amor e o compromisso de Deus em relação ao Seu povo. Também é facilmente traduzido como amor. A justiça e a bondade precisam andar de mãos dadas. A justiça sem a bondade esmaga as pessoas; a bondade sem a justiça as deixa acomodadas. A bondade vai além da justiça. Caminha a segunda milha com quem já não tem mais direito.
Quem procura acha. O que encontraremos quando nos entregarmos a essa busca? Somos informados de três coisas:
A primeira é que receberemos vida. "Chayim" é a palavra hebraica no texto que significa vida. Tornamo-nos vivos quando buscamos a justiça e a misericórdia. O que é a sua vida? Em média você viverá uns 70, 80 anos, quem sabe, mais ou quem sabe, menos do que isso e depois você morrerá. Se você tem 24 anos, você completou cerca de um terço da sua vida; se for 48 anos, dois terços; se 75, você está vivendo em tempo emprestado (tal como eu). Uma vida bem-sucedida é aquela que está realizada e gratificada, fazendo o que é justo consistentemente, e recebendo honras de Deus e das pessoas ao seu redor. Uma morte bem-sucedida é aquela que obtém a vida eterna (pela graça de Deus através da fé, como já frisamos anteriormente), recebe uma coroa de justiça e honra de Deus no instante em que você deixa o seu corpo. Há recompensas fantásticas pela escolha de praticar a justiça e a misericórdia!
Em segundo lugar em nosso conjunto de três bênçãos está a "justiça". Esta é a mesma palavra que foi usada anteriormente. Significa simplesmente que ao buscar a justiça, recebemos a justiça como um presente (isso vem como graça, recebida com humildade). Não se trata da justiça legal, mas da justiça da vida, oriunda da ação divina na história pessoal das pessoas que se dedicam à justiça e à bondade. É a retidão como forma ética de vida, o que leva à bênção seguinte.
O terceiro nesta lista de benefícios gloriosos é a “honra”. "Khavod" é a palavra hebraica traduzida como honra ou glória. Quando buscamos as coisas certas, isto é, a justiça e a misericórdia, o Sábio nos afirma que recebemos, além da vida e da justiça, também honra. Somos honrados pelas pessoas a quem servimos, a quem auxiliamos, a quem dedicamos nosso tempo e esforço no exercício da justiça e da misericórdia. Não é a autoexaltação, é o reconhecimento alheio, vindo como dádiva divina pelo exercício do amor ao próximo.
Por fim, podemos concluir que o caminho da retidão e da misericórdia não é fácil e é frequentemente contestado e ridicularizado. No entanto, é recompensado, e ricamente recompensado com vida, justiça e honra. O caminho sábio vale a pena.
Oração:
Ó, Deus e Pai de todos nós, doador de todo dom bom e perfeito, peço hoje que o Senhor nos dê uma chance para servir a Ti por meio de outros e outras, de forma que mostre a sua bondade e o seu reino e sua glória. Se no processo o Senhor escolhe suprir as nossas necessidades, nós te agradecemos. Oro isso através de Jesus. Amém.
ENSINO EFICAZ
Rev. Vicente de Paulo Ferreira
Provérbios 22.6 [NAA]:
Ensine a criança no caminho em que deve andar,
e ainda quando for velho não se desviará dele.
A tarefa de instruir a próxima geração nos caminhos da sabedoria enfrenta seus percalços desde os primórdios da civilização. Dá-se a entender que a sabedoria proposta em Provérbios 22.6 aborda diretamente este dilema milenar de repassar o legado de uma geração àquela que se segue. Há um bom exemplo deste dilema em um diálogo, no final no final da obra egípcia As Instruções de Any, datada do período da 18ª dinastia do Egito, que reinou entre 1550 a.C. e 1295 a.C. No diálogo, o escriba Any lida com a contestação de seu filho Khonshotep, também um escriba, resistindo à idéia de abraçar de todo coração o legado cultural da geração de seu pai. Khonshotep argumenta que o legado que seu pai lhe deseja passar está comprometido por duas razões: a) cada homem é guiado por sua própria natureza, e b) um jovem não segue instruções morais, mesmo que tais instruções estejam na ponta de sua língua. O que vamos tentar nesse devocional é buscar uma resposta para esses argumentos no próprio texto de Provérbios 22.6. Para isso, no entanto, é necessário adaptar o que nos instrui o texto de Provérbios à realidade familiar vivida em nosso tempo.
Na realidade atual, compartilhada por muitos educadores e pais de família, pai e mãe são os responsáveis pela educação dos seus filhos e filhas. Poderíamos dizer que são os pedagogos e as pedagogas da família. É de sua competência o ensino e a formação do caráter das crianças. Mas como esse processo se desenvolve? Vejamos:
Primeiro, os pais não devem ensinar o caminho em que os filhos querem andar, uma vez que a estultícia (ou a insensatez) está ligada ao coração da criança (na verdade, da pessoa em qualquer idade). Em outras palavras, ela irá agir segundo a própria inteligência e razão, portanto ignorando ou rejeitando a sabedoria que lhe é repassada. Isso se encaixa no argumento do jovem Khonshotep, quando diz que o ser humano é guiado por sua própria natureza.
Segundo: os pais não devem ensinar o caminho em que os filhos devem andar. A tradução de Pv 22.6a, segundo a NVI está assim: “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela”. Isso é inadequado porque torna esse processo uma tarefa árdua para os pais e mães ao tentar realizá-la e, nessa tentativa, é certo que irão se cansar, desanimar e até se irritar, achando que todo o ensino que deram à criança foi tempo perdido. Lembra o segundo argumento de Khonshotep, de que um jovem não segue instruções morais, mesmo que tais instruções estejam na ponta de sua língua. Não adianta apenas apontar uma direção para os filhos, sem um envolvimento verdadeiro nessa caminhada. É o mesmo que impor um padrão de comportamento para os filhos e filhas, mas viver de forma contrária ao que se ensina.
Terceiro, os pais devem ensinar no caminho em que os filhos devem andar. Ensinar no caminho significa caminhar junto dos filhos, ser exemplo para eles, servir-lhes de modelo e paradigma. Albert Schweitzer disse que o exemplo não é apenas uma forma de ensinar, mas a única forma eficaz de fazê-lo. A atitude dos pais fala mais alto do que suas palavras. A vida dos pais é a vida do seu ensino. Os filhos e filhas não podem escutar a voz dos pais se a vida deles reprova aquilo que eles ensinam.
Conclusão: o Sábio de Provérbios antevê o resultado a longo prazo, afirmando que a criança que é ensinada no caminho pelos pais, “mesmo com o passar dos anos (quando for idosa ou idoso) não se desviará dele”. O ensino estribado no exemplo tem efeitos permanentes. Até o fim da vida, o filho ou a filha não se desviará desse caminho aprendido com pais.
ORAÇÃO
Pai Eterno, ajuda-nos a entender que nossos filhos e filhas precisam ser ensinados no caminho, que é a vida cotidiana, e esta é uma tarefa que deve glorificar o teu nome. Ensina-nos a instruí-los com a sabedoria que vem de ti para que possam ter consciência do teu grande amor por todos nós. Por Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém.